Aos 80 anos, Paul McCartney desafia o tempo – e a si mesmo

“Era ele! Rosto de bebê, franjas suadas, terno-gravata-botinha-de-salto, dedilhando com a mão esquerda o baixo-em-forma-de-violino, fome de descoberta musical, fome de mundo. Voz de anjo, num segundo; grito lascivo, no outro. As menininhas adoravam. Os caras queriam ser como ele. 

Era ele! Um quarto dos Beatles, transformador cultural, metade da dupla compositora que mais ajudou a elevar a musica pop à categoria de arte, a sombra e a luz de Lennon, dono de butique, de gravadora, produtor. Dono do mundo. Paul, dos Beatles. Paul, de Linda. E, no fim, Paul, carrasco dos Beatles”.  

“Ele” era Paul McCartney, quando, em 2007,  comemorava seus 65 anos de idade com o lançamento de seu primeiro álbum fora do universo EMI, Memory Almost Full, lançado pelo selo Hear Music, uma iniciativa surpreendente, feita em parceria com a rede de cafeterias Starbucks – e um mergulho de cabeça no música consumida através de arquivo digitais. 

No texto que fiz para a revista Época de uma semana daquele mês de junho, motivado pelo lançamento de Memory Almost Full, ressaltava essa determinação de McCartney sempre mirar no futuro, de “continuar investindo no experimento compartilhado por contemporâneos como Bob Dylan, Pete Townshend e os Rolling Stones: (saber se) é possível continuar fazendo pop e rock – território tradicionalmente de jovens – vital e de verdadeira importância a essa altura do campeonato”. 

Quinze anos mais tarde, do alto de seus 80 anos, Paul – assim como Dylan, Townshend, Mick e Keith – continua desafiando seus limites físicos e criativos, arrastando multidões por onde se apresenta, lançando discos que, ainda que não tenham o mesmo poder de transformação e reinvenção de seu trabalho nos anos mais jovens, revelam um Paul eternamente inquieto, ainda como fome de jogo e, como escrevi em 2007, “ainda possuidor de uma das mais aguçadas sensibilidades pop do planeta”. 

“Hoje”, já postei aqui, nesse mesmo espaço, dois anos atrás, “Paul não é apenas (como se isso fosse pouco) um mega-astro de pop-rock, um ex-Beatle (o que já bastaria para canonizá-lo), mas um ícone cultural, um monumento da música popular que ajudou a moldar o mundo em que hoje vivemos em mais sentidos do que se possa imaginar (com) a vitalidade, a relevância e a fome de um homem com menos de 50”, sem se deixar intimidar por seu fabuloso “passado sempre presente”, como diz uma de suas músicas de década e meia atrás.

“Fico impressionado (com a vida que tive)”, disse Paul ao jornalista John Colapinto, que o entrevistou longamente para a revista New Yorker, em 2007 – num mundo pré-Beatles nas plataformas de streaming, pré-reedições super deluxe do catálogo da banda, pré-pandemia, pré-Get Back na Disney +, pré-McCartney III. “E como não poderia ficar? Eram quatro pessoas nos Beatles, e eu era um deles. Eram duas pessoas na dupla de composição Lennon/McCartney, e eu era um deles. Só isso já basta para uma vida. E ainda teve um cara que compôs ‘Yesterday’, e eu era ele. Um cara que compôs ‘Fool On The Hill’, ‘Let It Be’, ‘Lady Madonna’, e eu era ele, também. É para você se beliscar”.