Big Boy, os Beatles e ‘Let It Be’: sonho ou realidade?

Já não tenho certeza se isso aconteceu, ou se simplesmente imaginei, ou sonhei. Ou será que alguém me pregou uma peça, vendeu uma cascata e eu acreditei?

Mas vamos partir do pressuposto de que seja um relato de fatos que li (ou me contaram) em algum lugar num ponto distante do passado sobre algo acontecido em 1969, em Londres. 

Fatos que envolveriam Big Boy – o gigante da rádio brasileira – e os Beatles.

O disc-jóquei e programador Big Boy – no auge de sua popularidade nas rádios do sistema Globo, principalmente na Mundial do Rio de Janeiro – comandava uma série de programas. Dentre eles, o Cavern Club, dedicado exclusivamente aos Beatles, que naquele ano ainda estavam na ativa e no topo do Olimpo pop.

E eis que Big Boy, num mês de 1969, super expert em rock e em Beatles, viaja para Londres, onde vai ao apartamento de um contato bem posicionado na indústria fonográfica britânica, para ouvir, em primeira mão, uma cópia em fita de rolo das gravações que os Beatles haviam feito para um álbum inédito. Lançado no ano seguinte, esse disco seria o canto do cisne da banda: Let It Be.

Quase ninguém tinha ouvido coisa alguma daquele material e Big Boy estava diante de um furo exclusivo e planetário. Imagine a emoção. 

Em certo momento, teria pedido a seu anfitrião um copo de água, alegando sede. No que foi prontamente atendido. Lá se foi o anfitrião para a cozinha. E quando a água chegou Big Boy havia desaparecido. Levando a fita debaixo do braço.

De volta ao Brasil, passou a tocar tudo aquilo, em primeiríssima mão, na Rádio Mundial.

Foi assim que muitos cariocas puderam desfrutar (em AM!) não apenas muitas faixas do que seria a edição oficial de Let It Be, bem antes que ele sequer existisse, oficialmente, como também a íntegra de brincadeiras como  “Dig It” e tantos trechos com os bastidores das sessões de gravação que nunca entrariam naquele álbum. 

Essa história da fita que viajou direto da Grã-Bretanha para os ouvidos sortudos do Rio de Janeiro – apócrifa?  Imaginada? Truncada? Alguém ajuda a confirmar ou refutar? – veio à tona dia desses porque, meio século mais tarde, Let it Be está sendo revisitado de forma arqueológica, meticulosa, com o formato super deluxe trazendo o disco oficial totalmente remixado por Giles Martin e o engenheiro de som Sam Okell, em estéreo e também em som surround DTS 5.1 e Dolby Atmos, mais a versão do álbum pensada pelo produtor Glyn Johns (e recusada sem cerimônia pela banda) e catadupas de versões alternativas, brincadeiras e ensaios.

A remixagem moderna – como costuma acontecer – remove camadas opacas, resultantes da tecnologia disponível à época da gravação, e dá um novo lustro e uma definição muito mais clara de vozes e instrumentos, revela detalhes novos (os vocais de “I’ve Got A Feeling”, por exemplo, ganham garra e paixão ainda maiores; sem harpa, como McCartney preferia, “The Long And Winding Road” agora perdeu muito do exagero e ficou mais clássica e menos xaroposa). 

Mais: os tempos mudaram, os ouvidos mudaram, as emoções mudaram.

As circunstâncias em 2021 são bastante diferentes do que eram em 1970, quando Let It Be saiu. Lá atrás, o álbum e o filme de mesmo título foram recebidos como o epitáfio amargo de uma banda flagrada em seu momento de maior discórdia. Agora, acoplado a Get Back (era esse o título original do álbum que estavam fazendo) –  o novo documentário que Peter Jackson montou, a partir de muito material deixado de fora do original de Michael Lindsay-Hogg – , Let It Be ressurge sob outra ótica, com a criatividade e a alegria de trabalhar juntos contrabalançando (ou sobrepujando, boa parte do tempo) os estresses naturais de um trabalho intenso e concentrado invadido por câmeras e claquetes. 

Os Beatlles, àquela altura, eram como um casal que já sabia que sua relação não tinha mesmo muito mais futuro, mas fazia tudo para tentar preservar o melhor do que haviam construído até ali.

E essa nova versão deixa clara a camaradagem, o tesão de tocar como uma banda, e a capacidade de, apesar de tudo, concentrar os esforços, a criatividade e o profissionalismo de John, Paul, George e Ringo para deixar gravado algo à altura do seu legado. São os Beatles, afinal. E lembre que ainda não se aventava um álbum seguinte – esse, sim, sua última gravação a quatro – , que viria a ser Abbey Road. Também fica evidente o enorme benefício da entrada de Billy Preston no estúdio, o que revigorou e estimulou os quatro de forma considerável.

Ganha-se acesso a conversas de estúdio sobre composição (George pedindo conselhos para finalizar a letra de “Something” – John diz para ele simplesmente se virar, improvisando o que viesse à cabeça até chegar a um resultado que o satisfizesse –; Ringo apresentando a todos “Octopus’s Garden” – “é só isso que eu tenho”, ele admite, quando não passa dos primeiros versos, e todos caem na gargalhada, mas tentam ajudar –; Paul e John numa versão mais pesada e soul de “Oh, Darling”, ou os dois brincando com “Polythene Pam”, ambas faixas que só apareceriam no álbum  Abbey Road, gravado depois mas lançado antes de Let It Be). 

Estão aqui também embriões de músicas que só entrariam nos álbuns solo de George (“All Things Must Pass”) e John (“Gimme Some Truth”, para a qual pede sugestões a Paul: “precisamos mudar essa parte”, alerta Lennon, a certa altura). 

E é incluída, ainda, a versão de “Across The Universe” com Lizzie Bravo e Gayleen Pease nos vocais, uma inclusão histórica e merecida.

Voltando a Big Boy, em 1972 ele disse à Rolling Stone brasileira que achava já estar na hora de transformar o Cavern Club, até então reduto exclusivo dos Beatles, num programa “mais educativo, mais vivo”, que a cada edição enfocasse um artista diferente. “Não está muito legal esse clima de nostalgia em torno dos Beatles (…) não tem mais sentido”, disse. Isso apenas dois anos após o fim oficial da banda. 

Pode-se apenas imaginar o que Big (como era chamado carinhosamente por seus fãs) diria no século 21 sobre o interesse intenso e constantemente renovado pelos Beatles. 

Dificilmente se conseguiria antever, 50 anos atrás, a profundidade e a complexidade da influência que a música dos Beatles manteria sobre a cultura, mesmo décadas depois da extinção do grupo, quando geração após geração descobre a música dos Beatles e mantém acesa a chama que arde desde a década de 1960.