Bob Marley no Brasil: dias de futebol, badalação e Jacira

Bob Marley veio ao Rio de Janeiro em março de 1980, época em que estava gravando o álbum Uprising

Chegou ao aeroporto Santos Dumont, num jato particular, acompanhado de seu companheiro de banda – o guitarrista Junior Marvin – e de Jacob Miller, vocalista do Inner Circle, grupo de reggae também contratado do selo Island, criado por Chris Blackwell, o anglo pioneiro na indústria fonográfica jamaicana, que completava a turma visitante com sua esposa, Nathalie, ex-Alain Delon.

A visita fora organizada para badalar – com uma mega festa no Morro da Urca – o início das operações no Brasil da gravadora Ariola, que distribuiria aqui os discos de Marley, um astro de altíssimo quilate, e dava a largada com um naipe nacional de pesos-pesados que incluía Chico Buarque, Alceu Valença, Ney Matogrosso, Morais Moreira, Marina Lima e Milton Nascimento. 

Como não havia planos de shows, apenas de aparições promocionais, como na festa, organizou-se uma coletiva de imprensa para que o Brasil pudesse conhecer melhor o gigante do reggae, cuja “No Woman No Cry” havia tornado-se megahit numa versão de Gilberto Gil, “Não Chore Mais”.

Agendada para 11h30 no Copacabana Palace, onde Marley e toda sua turma estavam hospedados, a coletiva deu chabu. Rio de Janeiro sendo Rio de Janeiro (e ainda mais naquele tempo), nenhum jornalista chegou na hora. Exceto Ricky Goodwin, ex-Jornal de Música e ali representando O Pasquim, o tabloide semanal de humor, cultura e mordaz crítica política (e isso ainda em plena ditadura militar). E Bob, muito puto da vida, tirou o time de campo.

Eu fui um dos retardatários, pautado para falar com ele para a Revista do Domingo do Jornal do Brasil junto com Maurício Valladares, que faria as fotos. A vergonha só foi superada quando soube que Bob iria jogar uma partida de futebol amistosa no campo de Chico Buarque no Recreio dos Bandeirantes. Maurício e eu poderíamos ir lá e cavar uma segunda chance de entrevistar o cara. 

E assim fomos parar no campo do time Politheama, de Chico, num final de tarde, onde Bob pôde demonstrar que como jogador de futebol era o melhor artista de reggae do mundo. “O maior pereba”, descasca hoje Maurício, lembrando daquela pelada.

Numa pausa na partida, Marley sentou para tomar água e aproveitei a chance de me apresentar e tentar algo parecido com uma entrevista. Bob, no entanto, surpreendeu com a sugestão de uma conversa à noite, em seu quarto no Copacabana Palace.

E é aí que a história fica boa. 

Meu filho, Bernardo, então com um ano e meio, tinha uma babá chamada Jacira – que era fã de Bob Marley e vinha acompanhando com enorme interesse as tratativas para a entrevista. Num momento de genialidade (ou de total privação de bom senso) surgiu, de estalo, a ideia: por que não levar Jacira ao Copacabana Palace, também? Em nenhum momento ocorreu que seria o cúmulo da falta de profissionalismo levar a babá do filho a uma entrevista, ou imaginar o que aconteceria se Jacira fosse barrada por Bob e tivesse que ficar esperando, sabe-se lá até que horas, pelo fim da entrevista. E lá fomos os três para o hotel na Avenida Atlântica.

Junior Marvin recebeu Jacira, Maurício e eu no quarto indicado e nos conduziu à suite onde estava Bob. Bateu na porta, identificando-se e chamando Marley de “skipper”, capitão. Mas quem abriu foi Jacob, com um baseado pendurado entre os lábios. Entramos e ele nos mostrou um monte de maconha sobre a mesa. “Erva”, disse, me entregando um pacote de papel, “e seda. Sirvam-se”. 

Docemente constrangidos, recusamos o convite para degustar o que deveria ser ganja de altíssima qualidade e avistamos, reunidos em torno da cama da suíte, Bob Marley, tocando um bandolim dolorosamente desafinado, Jim Capaldi, baterista e co-fundador do Traffic, àquela altura já um carioca honorário (era casado com a ipanemense Ana desde a década anterior), tentando uma percussão com as mãos sobre os joelhos, e o jogador Paulo César Caju, que havia participado do amistoso no campo do Politheama. “Mandolin theme”, dizia Capaldi para Bob, enquanto Marley improvisava alguma coisa, antes de todo mundo cair na gargalhada.

Feitas as apresentações e encerrada a jam session meio desorientada, lá fomos eu e Bob para a entrevista formal que havia sido combinada. Acompanhada de Maurício, Jacira ficou sendo entretida por Jacob, que flertava com ela abertamente, mas com deferência e respeito totais. Jacira não falava uma palavra de inglês e Jacob, necas de português. 

A entrevista com Bob não avançou como esperado, também por problemas de comunicação. Doidão e à vontade, pontuando as frases com “mon” e “tchu tchu”, Marley falava com forte sotaque e usando expressões tiradas do patois jamaicano – o inglês misturado com influências do linguajar das Antilhas – , tornando-se quase incompreensível. No entanto, como tudo estava sendo gravado, a esperança era de que a audição repetida da fala de Bob revelaria o que ele realmente estava respondendo.  

Encerrada a conversa, antes de irmos embora, Jacira foi apresentada a Bob, que, assim como Jacob, encantou-se por aquela carioca engraçada, toda de branco, cabelo afro e sorriso contagiante. Maurício não pensou duas vezes e clicou Jacira com Miller (a baga entre os lábios) e Marley e, depois, ela com Bob, ele de bandolim em punho.

No dia seguinte, ao ouvir a fita da entrevista, confirmou-se a quase impossibilidade de se entender o que Bob havia dito e muito pouco acabou sendo aproveitado para a matéria pretendida. Ficou um texto impressionista, onde Bob era descrito como “um preto velho incorporado, absorto em profunda meditação herbal”.

Para Maurício, os dias com Bob renderam bem mais. Em especial, ali ele clicou uma foto que tornou-se um clássico instantâneo, onde os dreads de Marley parecem voar enquanto ele veste uma camisa do Santos

Para Jacira, então, nem se fala. Até hoje estão penduradas em sua casa, no bairro do Corcundinha, nos arredores de Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, suas fotos com Bob e Jacob.

Jacira tornou-se evangélica fervorosa, mas ainda lembra, com alegria e afeto, as horas passadas sendo entretida por dois mestres do reggae numa suíte do Copacabana Palace.

11 Replies to “Bob Marley no Brasil: dias de futebol, badalação e Jacira”

  1. Carinha Rondeau, deliciosa história marleiana! Vivi situação semelhante quando entrevistei o baixista dos Wailers, Aston Barrett, aka Familyman, para o Jornal do AfroReggae há muitas luas. Marcada para uma manhã de domingo naquele hotel cujo nome esqueci, que ficava onde hoje é o shopping Cassino Atlantico, fui levado à suíte do homem e fiquei esperando na ante-sala. Logo me levaram ao quarto onde Mr. Barrett, com cara de quem tinha acabado de acordar, abriu um sorriso tranquilo ao me ver, estendeu a mão e murmurou sons absolutamente incompreensíveis, enquanto enrolava com calma absoluta um charo de um centímetro de diâmetro e dez de comprimento. Enquanto ele apertava o bichão, mais que depressa, liguei o gravador e comecei o aquecimento para a entrevista que, baseado (sem trocadilho) no meu conhecimento de inglês jamaicano e um pouquinho de patois adquirido na minha estada na ilha caribenha, achei que fluiria suave. Ledo engano. Após alguns tapas no beque, o gentil bassman começou a responder as minhas perguntas com voz empastada, sotaque jamaicano fortíssimo e palavras que eu entendia quatro em dez. Foi papo de surdo. Mas, graças às maravilhas da tecnologia da época – a fita cassete – levei o papo para casa onde, em trabalho de reconstrução linguística, consegui extrair a matéria. Happy ending.

  2. Gostei ! Estou entretido em uma modesta pesquisa sobre Bob Marley e estava mesmo curioso para saber nfformaçes sobre sua passagem ao Rio. Sortudos vocês e Jacira por um encontro mitológico destes! Jah live! Saravá!

  3. “um preto velho incorporado, absorto em profunda meditação herbal”. Que delícia de relato! Pude viver um pouco desse encontro. Muito bom!

  4. Adorei ! … ter historias assim nao é um privilégio ???? Parabens pelo texto espirituoso. Que época vivemos JER… que época ! Coisas que o dinheiro nao compra, o poder não garante… E o Tempo não apaga. Abraçao…Guilherme Arantes.

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