Caetano Veloso, o dia-a-dia, e uma lição

David Byrne descreveu Caetano Veloso para O Globo de ontem como sendo possuidor do “sentido melódico de Paul McCartney” e capaz “das inovações poéticas de (Bob) Dylan” – e um artista que “constantemente se reinventa”.

É uma forma de se descrever Caetano. Mas ainda assim acaba faltando. 

Afinal, Caetano é muitos (pop, erudito, romântico, ácido, crítico, carnavalesco, raivoso, provocador, solar, filosófico, sensual, dançante) e sua arte vem sendo expressada com inquietude, curiosidade insaciável e genialidade desde que invadiu os televisores do país inteiro de braços e sorriso abertos, nos desafiando: “por que não?”’.

Até chegar aos 80 anos, Caetano construiu uma carreira desbravadora, abrindo caminhos (como no Tropicalismo) e nossos ouvidos para um mundo novo e empolgante de invenção musical e poética, ao mesmo tempo em que celebrava suas inspirações de vida inteira, sacadas com maestria e com espírito democrático de seu conhecimento enciclopédico de (e de seu intenso amor por) música. 

Sempre com a capacidade de surpreender, intrigar, fustigar. E, sempre, de emocionar. Ou de confundir. E de fazer pensar.

Tudo isso se manifestou de maneira condensada numa manhã de 1978, quando, foca jovem e bem cru da revista Pop, fui pautado para entrevistar Caetano Veloso, como parte de uma pauta sobre as Frenéticas – as garçonetes cantoras criadas por Nelson Motta para sua discoteca The Frenetic Dancin’ Days, que estavam lançando seu segundo álbum pela WEA. 

Os editores da revista tinham inventado um gancho para falar das moças: elas escolheriam suas personalidades “frenéticas” favoritas, e os repórteres teriam a incumbência de saber com essas personalidades como era seu dia-a-dia “frenético”. Pauta perfumaria, inofensiva, de badalação simpática. Moleza, não? Bem …

Cheguei pouco antes do almoço ao apartamento de Caetano – de fundos, enorme, num prédio baixo da Delfim Moreira, já demolido – e soube que ele ainda estava dormindo, mas que eu poderia esperar, se quisesse. Sentei numa poltrona da sala, e esperei.

Duas horas mais tarde, nada de Caetano. Na incerteza de conseguir nova brecha na agenda do artista, e com o prazo da pauta rugindo no cangote, melhor esperar. E continuei esperando, lendo todas as revistas que havia na sala e com uma única pergunta na ponta da língua pronta para ser feita, assim que ele aparecesse na frente.

O que só aconteceu outras quatro horas depois. Após ele ter levantado e almoçado. 

Caetano chega, enfim, sorridente, copo de Coca-Cola na mão, pede desculpas pela demora, e … lá vai a pergunta: “como é seu dia-a-dia frenético?”.

Ele mira nos meus olhos, um misto de surpresa e desconfiança, até que abre um sorriso maroto e dispara uma única frase: “Mas o que é o dia-a-dia”? 

E só. O bastante para desmontar o gancho da pauta – e o repórter iniciante, a quem restou apenas se desculpar e sair de fininho, remoendo mais tarde tudo aquilo que aquela pequena – e super inteligente –  provocação poderia ter rendido, não fosse a paralisia diante do não-óbvio, do não-esperado, do jeito Caetano de ser e de questionar.