Ciceroneando dois Sex Pistols no Rio de Janeiro

A missão era simples e direta: naquela manhã abafada de final de janeiro de 1978, ir ao aeroporto do Galeão, bem cedinho, para recepcionar (Abordar? Tocaiar?) os Sex Pistols, que estariam chegando para passar alguns dias no Brasil, e tentar extrair  daquele encontro material suficiente para um texto que seria publicado no Jornal de Música de fevereiro. O grupo estaria vindo ao Brasil para fazer um show na New York City Discotheque, em Ipanema. 

Nada rolou exatamente conforme o plano. 

Johnny Rotten e Sid Vicious, os atrativos maiores da missão jornalística, dada sua capacidade de gerar impublicáveis memoráveis, não desembarcaram do avião da Pan Am. Também, pudera. Eu ainda não sabia, mas os Sex Pistols, como os conhecíamos, já nem existiam mais. A banda havia encerrado sua única turnê americana dias antes, em São Francisco, e só viria a tocar junto de novo, com Glen Matlock substituindo Sid, em 1996. Mais sobre isso depois. Portanto, nenhum show aconteceu no Rio de Janeiro. 

Mas a decepção inicial no Galeão acabou virando o início de uma série de dias de aventura como cicerone informal dos dois quartos restantes da banda – o guitarrista Steve Jones e o baterista Paul Cook – durante sua passagem pelo Rio de Janeiro, enquanto, aos poucos foi-se descobrindo, eles se preparavam para gravar duas faixas e rodar um videoclipe com Ronnie Biggs (o falecido integrante do bando que realizou um grande assalto a um trem na Inglaterra, em 1963), dirigido por Julien Temple.

Foram semanas divertidas – para todos envolvidos -, com direito a piscina e batida na Barra da Tijuca, ida ao teatro Tereza Rachel para ver Raul Seixas (onde tiveram o privilégio de conhecer Ezequiel Neves), quebra de protocolo num prédio governamental e estrepolias num salão de reuniões de um hotel chique em Copacabana. 

O contato inicial no Galeão não foi dos mais promissores. Steve e Paul desembarcaram sonados, de mau humor e lacônicos. E azedaram mais ainda com a primeira (e decididamente imbecil) pergunta que saiu da minha boca: “Cadê Johnny e Sid?”. O que fazia dos dois um prêmio de consolação. 

Mas a resistência foi sendo vencida aos poucos, nos dias seguintes, com vários encontros informais que, mais que uma matéria, renderam boas memórias. Quer dizer, algumas memórias: lembre-se, estamos falando da década de 1970. 

Tanto que não consigo lembrar, exatamente, como e por quê acabei virando cicerone informal de Steve e Paul, exceto que houve decerto intervenção de Ana Lúcia Novaes, divulgadora da Polygram (gravadora que representava os Pistols no Brasil). Tampouco sou capaz de reproduzir conversas que tivemos, enquanto cruzávamos as ruas do Rio de Janeiro no Passat branco de meu pai. Mas algumas lembranças permaneceram intactas. Ou quase. 

A primeira é de uma ida ao Teatro Tereza Rachel, em Copacabana, para um show de Raul Seixas, também artista da Polygram. Teatro lotado, Steve e Paul meio assustados com o assédio dos poucos fãs que os reconheciam (mais por conta de suas camisetas punk e pelo fotógrafo da revista POP que registrava sua movimentação pelo saguão de entrada) e atordoados com a chegada espetacular de Ezequiel Neves, que já soltou um caloroso “never mind the bollocks, garotinhos!” quando os avistou.

Mais tarde, Zeca relatou na POP o encontro.: “Foi gênio, dei de cara com dois garotos maneirísimos, iguais aos milhares de moleques que andam nas pobres ruas desses brasis. Lógico que fiquei de quatro”. Título da matéria: Os reis do punk são apenas bons meninos”. E lá apareci eu na matéria, numa foto com Steve e Paul, na revista onde viria a trabalhar meses depois.

Steve Jones e Chica. Foto de Maurício Valladares.

A fama de maus dos dois punks levou novo baque num almoço de domingo na imensa casa onde morava meu brother Maurício Valladares, em um condomínio na Barra da Tijuca. De sunga e camiseta, Steve e Paul curtiram piscina, feijão, suco de maracujá, batidas e caipirinhas num dia de calor esturricante.  A curiosidade da boxer Chica por Jones, registrada em foto por Maurício (assim como toda a tarde), rendeu no Jornal do Brasil a legenda marota: “sua primeira companhia feminina no Rio”. E os dois ingleses, bons moços, educados e polidos a tarde inteira, entraram na cozinha para lavar seus pratos e copos. 

Dias mais tarde, o rigor do protocolo do governo estadual foi testado quando levei Steve e Paul para serem entrevistados na Rádio Roquette Pinto, no Centro da cidade, pelo radialista Guerra, um dos primeiros a tocar Sex Pistols no Brasil (se não o primeiro!). 

Sem me dar conta de que a rádio ficava num prédio do governo, não me ocorreu que não deixariam os dois entrar de sunga (estavam saindo da praia de Copacabana, onde estavam hospedados). Dito e feito: os dois foram barrados. 

Guerra precisou fazer um acordo de paz com a direção da rádio, argumentando a favor do momento histórico que estava para acontecer ali, e Jones e Cook subiram para o estúdio de sunga, para o espanto de todos ao seu redor. Em algum lugar deve existir uma cópia da entrevista.

Meu último encontro com os dois ocorreu no hotel Rio Palace (hoje Fairmont), no posto seis de Copacabana, onde houve um “coletiva” de araque que estava sendo filmada pela equipe de Julien Temple para o documentário The Great Rock and Roll Swindle. Menos de 10 anos depois Temple voltaria à cidade para rodar um média metragem com outro artista de rock, Mick Jagger. 

Ali, Steve e Paul – acompanhados do empresário Malcolm McLaren e de Biggs – já não eram mais os caras simpáticos e engraçados que caíram na gargalhada quando expliquei o que era um “flanelinha” (aquele ofício não fazia o menor sentido para eles) e que me presentearam com uma camiseta presenteada por um repórter da Rolling Stone, com a reprodução de uma capa da revista com Paul e Linda McCartney. Naquela “coletiva” eles estavam fazendo papel de punks para a plateia e para a equipe de filmagem.  

Coda: Los Angeles, 1996.

Em 1996, os Pistols voltaram à ativa para fazer quase 80 shows dentro da turnê Filthy Lucre, que rendeu um álbum ao vivo. Um deles, em Los Angeles, onde eu morava. E lá fui eu ao encontro deles, novamente, numa suíte do hotel Chateau Marmont, em West Hollywood, para entrevistá-los para a Bizz. 

Como num déjà vu, todos os Pistols presentes (menos John Lydon, que não compareceu) se comportavam como … punks. Steve Jones chegou a soltar um pum sonoro para tentar me chocar. Sem me abalar, me identifiquei como o cicerone carioca de 1978. Steve mudou da água para o vinho. “Era você!”. E a entrevista decorreu normalmente, tranquila, como uma entrevista qualquer, sem encenações ou truques de efeito. E sem puns.