Dois dedos de prosa sobre Eddie Van Halen

Eddie Van Halen – morto ontem, aos 65 anos – ajudou a reescrever a cartilha da guitarra, apresentando um estilo e uma técnica só dele. Embora alguns contemporâneos, como Adrian Belew, também incorporassem alguns aspectos semelhantes, e apesar de ter gerado inúmeras “crias”, quando se ouve um solo de Eddie não há dúvida de quem está tocando. 

Estive com Eddie duas vezes no Brasil – no Rio de Janeiro e em São Paulo – durante a turnê de 1983, e outro par de vezes em Los Angeles – ele morava com a atriz Valerie Bertinelli no fim da minha rua, numa propriedade que incluía uma casa enorme e um mega-estúdio. Sempre com aquele jeito de garoto, sorridente, sempre com um cigarro e uma cerveja na mão. E desde o primeiro até o último show que vi do Van Halen – com Gary Cherone , ex-Extreme, nos vocais, uma combinação que não deu muito certo – , seu virtuosismo-sem-esforço (parecia sempre estar brincando com a guitarra, como uma criança amarradona) e seu entusiasmo mantiveram-se inalterados. 

Quem viu a banda tocar no Brasil, em 1983, teve o privilégio de ver e ouvir o grupo no topo de sua forma, com a escalação original e clássica, e dispondo de recursos de palco inéditos para os artistas brasileiros, como constatou Renato Ladeira – um dos fundadores da Bolha, na época integrante do Herva Doce, grupo encarregado do show de abertura no Maracanãzinho. 

Na época, os monitores do retorno – as caixas de som que reproduziam para a banda no palco o som que estava fazendo, para que os músicos pudessem se ouvir e se guiar – ficavam na beira do palco, virados para quem tocava. Mas no caso do Van Halen – e isso era uma novidade para o Brasil – o retorno vinha do chão do palco: havia grandes buracos, cobertos com grades, sob os quais enormes caixas de som cumpriam a função de retorno.

Os músicos do Herva Doce receberam da produção a recomendação de não utilizar o retorno do Van Halen – nunca, jamais, aquilo era apenas dos headliners. Mas, carioca sendo carioca, Renato e seus companheiros de banda conseguiram se conectar ao retorno proibido – e tomaram o maior susto.

“Vinha uma ventania de som daquele retorno”, lembrou Renato, anos mais tarde. “Praticamente fazia a gente levantar voo!”.