Jimi Hendrix em 20 músicas

Houve um tempo em que você ia à loja de discos e podia “testar” a bolacha antes de comprar, para ter certeza de que ia gostar da música ou do álbum. 

Você pegava o disco, entrava numa cabine e “degustava” o som novo.

Um grande amigo meu, naquele ano de 1968, pegou na estante da Mesbla do Centro do Rio de Janeiro o álbum Electric Ladyland, de Jimi Hendrix, e pousou a agulha na primeira faixa, “…And The Gods Made Love”,  um experimento de sons elétricos e vozes distorcidas que antecede o lirismo de “Have You Ever Been (To Electric Ladyland)”. O vendedor intercedeu imediatamente, pedindo desculpas pelo disco “defeituoso”, e foi buscar outra cópia. E deu com os burros n’água: a mesma cacofonia abstrata saiu das caixas de som, aumentando o desespero do atendente. Mas antes que o homem partisse em busca de uma substituição, meu amigo teve clemência e disse: “É assim mesmo, vou levar”. O vendedor não entendeu nada.

Esse é um exemplo drástico – e cômico – das reações provocadas pela música de Jimi Hendrix. 

Desde que surgiu, aparentemente do nada (embora viesse afiando seu talento durante anos, como acompanhante de inúmeros artistas), Hendrix deixou músicos, críticos e público estupefatos pela maneira como multiplicou as possibilidades da guitarra (tirando dela sons inéditos, combinando poesia, distorção, retroalimentação, potência e espetacularidade; sons que ele inventava ou que ninguém mais tinha tido a sacada ou a ousadia de tentar, ou mesmo a destreza de executar), como fez do estúdio de gravação um instrumento adicional (aproveitando-se da velocidade com que novas tecnologias vinham sendo implementadas e do talento de engenheiros e produtores que embarcavam com ele na mesma viagem, como Chas Chandler e Eddie Kramer), como se cercou de músicos capazes de seguirem sua visão eclética (Mitch Mitchell tinha uma formação jazzística), e como demonstrava, a cada disco, uma capacidade de ser muitos: rock and roll, soul, blues, funk, R&B, pop; violento, sutil, romântico, épico, rocambolesco, sexy, circense, Hendrix foi tudo isso. 

Essa playlist busca destacar todas essas facetas de Hendrix nos 50 anos de sua morte tão prematura e tão estúpida. Não é definitiva, completista. É, sim, uma amostra da abrangência de seu talento como instrumentista, compositor e produtor, e uma vitrine dos sons que tanto assombraram, surpreenderam, emocionaram e inspiraram músicos e fãs desde o lançamento de seu primeiro single, em 1967, uma cover de “Hey Joe”, música sobre um homem que foge depois de matar a tiros a própria esposa.

Coda: Hendrix acabaria morrendo no dia do aniversário de meu amigo que testava o disco na Mesbla. E hoje esse mesmo amigo vive em Seattle. Onde nasceu Jimi.