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A vida e a carreira de John Lennon sumarizam bem mais que  a trajetória extraordinária de um dos artistas mais importantes e influentes da história da música.

Ali estão contidas a evolução do pop-rock e a revolução cultural ocorrida no século XX, disruptiva avant la lettre.

Com os Beatles, John estabeleceu as bases de toda a criação pop-rock que viria dali por diante. Sua obra com o grupo faz parte do DNA de tanto, tanto – quase tudo – do que se faz e se ouve até hoje. 

Inicialmente interpretando covers da trilha-sonora de seus anos formativos, em pouco tempo Lennon afiou seu talento compositor, desenvolveu uma personalidade própria única, fortíssima, e deixou de ser um ídolo pop de crianças e adolescentes para tornar-se a voz e o ícone de gerações. 

Seu alcance mundial não ficou restrito à música, mas atingiu costumes, comportamento, política.

Embora não fosse necessariamente o melhor instrumentista do mundo, Lennon explorou os limites da composição, do arranjo e do estúdio com sua curiosidade e seu desejo de experimentação. A virilidade rascante de sua voz combinava perfeitamente com o tenor mais doce de Paul McCartney. E, quando a música pedia, ele nunca se esquivava de exibir sua vulnerabilidade. Durão ou frágil, Lennon sempre soou verdadeiro, real. 

Uma vez que se permitiu ser visto e ouvido como quem realmente era, vieram à tona – ou tornaram-se mais explícitas – características que ficavam ocultos detrás da nuvem da idolatria: seu sarcasmo, sua língua afiada, seu talento para inteligentíssimos jogo de palavras, seu garimpo preciso por canções que refletiam seu estado de espírito, assim como o espírito da época. 

Durante seus anos com os Beatles, John evoluiu de maneira vertiginosa como compositor e intérprete, na medida em que sofisticou-se: manteve o coração firmemente enraizado no rock and roll que o enfeitiçou na juventude mas incorporou a essa base tudo que passou a conhecer e absorver, o que resultou em música pop revolucionária, que extrapolava os limites do formato, propondo novas e inusitadas possibilidades e transformando para sempre o gênero, como exemplificado por músicas como “Strawberry Fields Forevers”, “Tomorrow Never Knows” e “I’m The Walrus”. 

A certa altura, sua vida e sua arte tornaram-se praticamente uma mesma coisa, quando seu relacionamento com Yoko Ono e todas as convicções e causas do casal passaram a dar o norte de todos seus passos, na música e fora dela. Havia motivo para tudo que faziam – e os resultados variavam imensamente.

Houve a genialidade dos primeiros singles individuais – “Instant Karma”, “Cold Turkey” -, os gestos políticos extremamente visíveis e eficazes – os bed-ins em Montreal e em Amsterdam, os outdoors pelo fim da Guerra do Vietnã -, hinos perenes como “Imagine” e “Give Peace a Chance”, e petardos cortantes, como “Gimme Some Truth” e “Mind Games”, mas os tiros n’água também ocorreram – o álbum Sometime in New York City é o principal exemplo.

Um hiato de cinco anos sem lançar discos e sem fazer shows, quebrado com Double Fantasy, lançado pouco antes da morte de Lennon, em 1980, serviu para recarregar as baterias e a motivação artística (quando sua relevância, assim como a de todos de sua geração, era posta em xeque pelo aluvião punk), reforçando, em última instância, a parceria amorosa, artística e familiar estabelecida com Yoko no final da década anterior. 

Seu último disco em vida – com um pé nas raízes rock lá de trás e outro projetado para o futuro, personificado pelo que faziam naquele tempo artistas como B-52’s e Cheap Trick, os quais admirava e nos quais enxergava a si mesmo e a Ono – é uma declaração de amor a Yoko (com quem repartiu, igualmente, o espaço no álbum) e ao filho pequeno, Sean, uma promessa (ou o desejo) de um futuro harmônico para a família, e um prenúncio de que ainda haveria muito mais a se fazer, agora que ele tinha reencontrado sua inspiração mais profunda e reatado com o show-business que excomungara anos antes.

Aos 40 anos, estava começando de novo. E queria envelhecer junto com a esposa e ver o filho mais novo crescer.

Mas a vida interveio.