Meu porre com Lemmy

“São três horas da tarde e Lemmy já começou a servir porções generosas de bourbon (misturado com) Coca-Cola – ‘rock and roll, certo? Fucking A!’”. 

Assim começava a matéria que escrevi para a revista Bizz, publicada em julho de 1991, sobre a tarde quente, de inicio de verão, que passei com o Sr. Kilmister em seu apartamento-padrão (decorado com bandeiras, como as do Brasil e da Alemanha nazista, pentes de bala para metralhadoras e garrafas vazias de bourbon), a poucos passos dos pontos favoritos do baixista, vocalista e frontman do Motorhead – os legendários nightclubs Roxy e Rainbow, no coração de West Hollywood, em Los Angeles. 

Foram quase hora e meia de causos, sinceridade em estado puro, gargalhadas – sobretudo, de muita, mas muita bebida.

Para ele – um dedicado atleta do copo, ali no vigor de seus 46 anos – , o birinaite à tardinha não parecia ser nada de mais. Na verdade, receber a imprensa acompanhado de Jack Daniel’s ou algum outro aditivo (líquido ou não) era, à época,  de rigueur entre músicos de rock. Foi assim, por exemplo, quando conversei com Slash não muito longe dali, no (hoje extinto) restaurante Hamburger Hamlet, quando o Guns N’ Roses ainda estava lapidando o álbum Use Your Illusion. Mas, ao contrário do guitarrista americano – e de Keith Richards, Flea ou David Bowie, que jamais ofereceram compartilhar o que estavam consumindo (vodka com Fanta, para o Stone; maconha, no caso de Flea; café espresso, para o ex-Ziggy) quando os entrevistei – , Lemmy não apenas era generoso com sua bebida, como insistia que seu convidado o acompanhasse … no seu ritmo, que não era o de meros mortais. 

Felizmente, tudo do divertido papo com Lemmy foi gravado – e a matéria está disponível na internet. Caso contrário, dificilmente me lembraria de tanto do encontro. 

Bronzeado, sem camisa e descalço, vestindo apenas um shorte de jeans, Lemmy fumou um Marlboro depois do outro enquanto falava sobre o álbum que estava lançando, 1916, elogiou as “garotas daqui – inacreditáveis”, demonstrou seu alivio por não ter um carro (“Para quê? Meus clubes favoritos ficam a dois quarteirões. Além disso, bebo demais para dirigir. Ia dizimar a cidade inteira”) e relembrou a miniturnê que o Motorhead havia feito no Brasil, em 1989, motivação para uma das faixas do novo disco, “Going to Brazil”.

Por causa de um instabilidade na energia, o show em São Paulo foi cancelado, tornando a excursão “curta demais. E a moeda, então … puff”, ele exclamou, com um gesto dramático, para enfatizar sua confusão com o câmbio da época. “Que loucura, eu não entedia nada. Entregava meu dinheiro nas lojas, nos táxis, e dizia: ‘pode me sacanear, sou um turista, porra!’”.

Já zonzo e agarrado ao bocadinho de sensatez que me havia sobrado, percebi que para sair dali e chegar em casa inteiro precisaria de muita água para tentar desanuviar a cabeça e afogar o porre em doses cavalares de hidratação.

Mas não seria o bastante. Já na rua, depois de me despedir de Lemmy – que parecia tão inteiro e coerente quanto quando cheguei – parei no primeiro 7-Eleven que encontrei para comprar o café mais forte possível num mundo pré-Starbucks-em-cada-esquina. 

Funcionou. Los Angeles sobreviveu a minha absoluta irresponsabilidade no volante. Lemmy, enquanto isso, manteve seu ritmo rock and roll até morrer, no final de 2015, aos 70 anos. 

Coda

A paixão de Lemmy por Jack Daniel’s com Coca-Cola gerou um abaixo-assinado para que a mistura fosse reconhecida com um drinque oficialmente chamado de “Lemmy”. O fabricante surfou na mesma onda e lançou uma edição limitada de Jack Daniel’s, dedicada ao Motorhead. As 288 unidades fabricadas foram todas vendidas – a 99 dólares, cada. 

Cheers, Lemmy! Fucking A!