Morreu? Sem problemas. Põe o holograma no palco

O que têm em comum artistas tão díspares quanto Maria Callas, Frank Zappa, Whitney Houston, Roy Orbison e Buddy Holly? Todos morreram. E todos continuam na estrada, agora sob a forma de hologramas.

O rapper Tupac Shakur foi um dos primeiros atrelados à tendência de se eternizar o fluxo de caixa de artistas falecidos com shows estrelados por versões digitalizadas do produto original, “apresentado-se” no festival Coachella, em 2012 – 15 anos depois de sua morte.

Mas o que se fez recentemente com as imagens digitalizadas de outros artistas falecidos representou um salto quântico adiante, em termos de tecnologia, escopo e ousadia.

Buddy Holly e Roy Orbison, mortos, respectivamente, em 1959 e 1988, protagonizaram uma turnê conjunta de 58 apresentações nos Estados Unidos, a Rock ‘N’ Roll Dreams Tour, na qual hologramas contracenavam com músicos de verdade, dublando gravações remasterizadas das vozes de Buddy e Roy.

Mais: com a permissão e a supervisão de Ahmet, filho de Frank, criou-se um show com uma hora de duração estrelado por … Frank Zappa, cuja versão humana deixou de existir em 1993.

Existem casos, ainda, de artistas que nunca foram de carne e osso e colecionam legiões de fãs, mesmo sendo – ou principalmente por ser – criaturas virtuais. Vide Hatsune Miku, uma diva digital que lota ginásios no mundo inteiro “cantando” pop (em japonês, sua “língua-pátria”, ou inglês) e dançando animadamente em shows que duram de 30 minutos a três horas. Visualmente, é uma garota de 16 anos com longas maria-chiquinhas turquesa, desenhada em estilo anime. Por ser uma animação, Hatsune tem uma série de vantagens sobre os artistas humanos: nunca envelhecerá, nunca estará indisposta ou cansada, menos ainda de mau humor ou sem energia. Pode trabalhar 24 horas por dia e estar em diferentes lugares ao mesmo tempo, como um filme que é lançado simultaneamente por todo o planeta. Sucesso mundial, no momento, Hatsune está em turnê por Estados Unidos e Canadá, “apresentando-se” em lugares médios (como a House of Blues, em Boston) mas também em estádios (como o Coca-Cola Coliseum, em Toronto).

Haverá, de fato, valor artístico e justificativa para esse tipo de empreitada, além do óbvio desejo de se perpetuar um fluxo de caixa de atrações que nem vivas mais estão? Decerto existem fãs que se deleitam com a possibilidade de reencontrar seus antigos ídolos num ambiente de show ou que topam um fac-símile ultra-realista para realizar o sonho impossível de ver ao vivo (se é que podemos usar esse termo, no caso) o artista favorito que já se foi ou que nem existia quando nasceu. Por outro lado, estaríamos abrindo a porta para aceitar fantasmas do artista original, reproduções que, pelo menos por enquanto, não interagem com o público, não se nutrem da energia da plateia para dar uma apresentação sanguínea, emocionada, viva. No entanto, a evolução da tecnologia, associada aos avanços na inteligência artificial, podem chegar a romper essas barreiras, e o que se verá é de possibilidades infinitas.

Com isso em mente, empresários unem-se a empresas de alta tecnologia para se preparar para viabilizar espetáculos com artistas que ainda estão vivos, mas cujas carreiras nos palcos podem ser eternizadas, mesmo depois de já terem partido. Estamos falando de campeões de bilheteria gente como Paul McCartney, Elton John, Rolling Stones, Eagles, e daí por diante.

Para o futuro, valerá tudo? Uma reunião dos Beatles, por exemplo, com holografias de John e George no mesmo palco que Paul e Ringo? Uma recriação digital da apresentação de Jimi Hendrix em Woodstock? Um espetáculo revivendo a Jovem Guarda, com as versões mais jovens, seminais, de Roberto e Erasmo? Um Tim Maia menos temperamental e mais pontual?

O The New York Times deu uma geral no assunto, recentemente, assinalando que em breve poderemos ter de volta aos palcos Elvis Presley e o relutante ABBA.