Os 50 anos de ‘Who’s Next’, o álbum que revigorou a banda – e o rock

Hoje, vamos fazer diferente. Em vez da playlist da semana, variada, vamos destacar um álbum histórico. No caso, Who’s Next, de 1971, cujo meio século de vida será comemorado mês que vem.

É, sob muitos aspectos, um álbum de renascimento e de resiliência, pois nasceu em consequência de um fracasso. E serviu de marco para o state-of-the-art do rock na década que estava começando, em termos de sonoridade, instrumentação e produção. 

Se você fosse Pete Townshend, do The Who, qual seria seu passo seguinte, após ter criado e lançado a ópera-rock Tommy, um divisor de águas estético e artístico para o grupo e para o pop da década de 1969? 

Bom, o passo seguinte seria … fazer uma outra ópera-rock! Maior! Mais ambiciosa! Mais desafiadora!

Tendo tomado gosto pela possibilidade de continuar expandindo o escopo de sua composição – até então, o grupo era mais dedicado a singles – , o caminho adiante para Townshend levava para obras de maior fôlego, mais arrojadas, livres dos três minutos que costumavam delimitar as canções pop.

E foi o que Pete tentou fazer, bolando a trama ultra-complexa de Lifehouse, uma ópera-rock tão cheia de detalhes, personagens e situações que pouca gente –quase ninguém! – sequer entendia do que se tratava. 

Resumindo, Lifehouse fala de um futuro distópico, onde as pessoas estão conectadas na Rede, algo parecido com a internet, mas bem mais sinistro. A Rede é administrada pelo governo, e através dela as pessoas são alimentadas – e anestesiadas. Lifehouse é o nome de um festival de rock organizado por um hacker que transforma os dados do Rede em música. 

Mesmo diante da dificuldade de Lifehouse conectar com as pessoas, o Who decidiu apresentar a íntegra da nova ópera-rock num show no teatro New Vic, em Londres, para testar o material inédito. Um show sem divulgação, quase secreto. Ao qual, consequentemente, quase ninguém compareceu. Imagine The Who apresentando, em primeira mão, sua nova ópera-rock … e o público quase não se materializa – e só apareceu depois que alguns passantes foram praticamente arrastados da rua. A primeira vez que “Won’t Get Fooled Again” foi tocada ao vivo, nesse show, está no final da playlist de hoje. 

Mesmo abalado, Townshend não entregou os pontos e aceitou a proposta de Kit Lambert, um de seus empresários, para ir gravar Lifehouse no Record Plant Studios, em Nova York (onde Jimi Hendrix havia obtido excelente resultados quando fez lá parte de Electric Ladyland). Seriam duas semanas de trabalho e, para concretizar seu desejo de registrar tudo ao vivo no estúdio, o máximo possível, sem precisar recorrer a overdubs, Pete chegou a convocar Leslie West, guitarrista do Mountain, para solar em “Baby Don’t You Do It”, clássico da Motown, que entrava na ópera-rock por ser a música que dois personagens ouviam no rádio do carro. Só que tudo ruiu em poucos dias – Pete bebia demais; Keith Moon já usava drogas pesadas; e o próprio Lambert afundara na heroína. E o projeto Lifehouse estava prestes a ser abandonado. Ou quase. 

O Who retornou à Inglaterra e, produzido pelo cracaço Glyn Johns, Pete decidiu tentar resgatar pelo menos parte do material de Lifehouse e transformá-lo num álbum coerente, mesmo que não representasse a visão completa do conceito inicial da ópera-rock. 

E assim nasceu Who’s Next, lançado 50 anos atrás, em agosto de 1971. Nem de perto uma ópera-rock, mas um dos mais parrudos, inovadores e bem produzidos álbuns de toda a história do rock. E um dos melhores da discografia do Who.

As gravações feitas no Record Plant ajudam a entender a importância de Glyn Johns no foco, na sonoridade, na organização de Who’s Next. Em Nova York, Townshend e a banda criaram rascunhos e jams do que, nas mãos de Glyn, viraram clássicos hinos rock – compactos, sólidos, empolgantes, eternos. Na playlist lá embaixo estão dois exemplos do trabalho feito nos Estados Unidos: a gravação com Leslie West e uma versão de “Love Ain’t For Keeping”.

Faixas como “Won’t Get Fooled Again”, “Baba O’Riley” e “Behind Blue Eyes” – remanescentes de Lifehouse –atingiram sua potência máxima, mesmo que por vezes fique difícil compreender do que estão falando, já que faziam parte de um contexto maior, que foi descartado. E a forma como Glyn sequenciou as faixas do álbum – incluindo novidades pós-Nova York, como “My Wife”, de John Entwistle –, traça uma narrativa musical dinâmica, com início heróico e final apoteótico. 

A instrumentação de Who’s Next – ao contrário do que se ouve nas sessões de Nova York – mostra o quanto Townshend projetava para o futuro a sonoridade do grupo. Ele lançou mão de sintetizadores – como o ARP  2500 –, instrumentos ainda novos para a época,  utilizando-os individualmente ou em conjunto com sua guitarra, modelo Gretsch 1959, presente de outro guitarrista, Joe Walsh. Essa combinação é o destaque de “Going Mobile”. 

E quando usa o órgão, um instrumento mais convencional, opta por, de novo, espetá-lo no ARP, como se ouve em “Won’t Get Fooled Again”.

Por tudo isso, em tantos aspectos, Who’s Next impulsionou a banda para o futuro, de uma forma que talvez Lifehouse não tivesse conseguido. 

Embora a ópera-rock original ainda sobreviva nas demos de Townshend, facilmente encontráveis na internet – ou na rede … –, no álbum Music from Lifehouse, registro ao vivo feito por Pete e músicos convidados, e nas músicas que foram sendo salpicadas nos discos seguintes do Who, como “Join Together”, lançada como single, ou “Pure and Easy”, faixa de abertura do primeiro álbum solo de Townshend, de 1972, e depois incluída no álbum Odds and Sods, de 1974. 

Um detalhe final e engraçado: a capa, clicada por Ethan Russel, mostra os quatro músicos do Who fechando o zíper de suas calças, presumivelmente depois de terem esvaziado a bexiga num bloco enorme de cimento. Inicialmente, eles haviam posado como se estivessem diante do monolito de 2001-Uma Odisseia no Espaço, mas antes de irem embora alguém teve a ideia de fingir que os quatro tinham acabado de mijar. Despejada água em locais estratégicos do bloco de cimento, foi feita a foto que acabou sendo a escolhida. 

p.s.: Muito do que contamos aqui está ainda mais detalhado na excelente matéria de capa com Pete Townshend na edição de agosto da revista Guitar Player. Só a parte onde Pete explica sua paixão pelo instrumento que ganhou de Joe Walsh já vale.