Os dois lados de Phil Spector

Como produtor, Phil Spector foi um pioneiro e um gênio: engendrou e popularizou uma técnica de gravação e mixagem que tornou-se sua assinatura – a Wall of Sound (Parede de Som), caracterizada pelo empilhamento de instrumento sobre instrumento, tudo embrulhado no eco mais reluzente, que gerou inúmeros sucessos de parada (como “You’ve Lost That Lovin’ Feelin’”, dos Righteous Brothers, “Be My Baby”, das Ronnettes, “River Deep – Mountain High”, de Ike & Tina Turner)  e inspirou tantos que vieram depois dele (os Beach Boys e Bruce Springsteen, por exemplo).

Spector encantou os Beatles a ponto de ter sido convocado para “finalizar” o que viria a ser o álbum Let It Be, produzido por George Martin (acrescentou toneladas de sacarina, retiradas décadas depois numa reedição “nua” do original), para produzir o primeiro álbum solo de George Harrison, All Things Must Pass, e muita coisa de John Lennon.

Mas Phil, como bem lembra Laura Snapes, do diário britânico The Guardian, também era um monstro, capaz de ameaçar cruelmente sua esposa (e artista produzida) Ronnie Bennet, das Ronnettes, e um feminicida: ele matou a tiros, sem a menor cerimônia, a namorada, Lana Clarkson, razão pela qual terminou seus dias detrás das grades, onde faleceu, em 16 de janeiro, aos 81 anos, por complicações causadas pelo COVID-19.

Por ser considerado um gênio, o lado sombrio de sua personalidade ficava sempre abafado por seu sucesso comercial.

“Spector criou não apenas uma sonoridade, mas o paragidma duradouro do mentor que explora seus artistas e cujo trabalho é lucrativo demais para ele ser responsabilizado, suas vítimas pouco mais que lamentáveis danos colaterais”, escreve Laura no jornal.

Vivas são devidos ao trabalho artístico de Phil, mas sua alma era podre e seu espírito era destrutivo.