Os principais caixotes de 2021

Para fechar o ano fonográfico, vamos a um mergulho profundo no tão rico mundo das reedições turbinadas de álbuns clássicos e das coletâneas e restituições que nos convidam ao íntimo do ato de criação, ao meio das decisões que definiriam a personalidade e a obra do artista como hoje a conhecemos.

Tivemos em 2021 uma fartura de caixotes recheados de rascunhos, versões alternativas e tentativas que ajudaram a expandir nosso conhecimento sobre músicas, discos e artistas que fazem parte de nosso DNA cultural. 

Mas dentre esse grande conjunto destacam-se cinco caixotes: 

The Beach Boys – Feel Flows /The Sunflower and Surf’s Up Sessions 1969-1971– Uma investigação profunda do período em que o grupo completou a transição do pop leve para uma música mais rica e complexa que vinha acontecendo desde Pet Sounds, de 1966, onde fertilidade e energia se misturam com a deterioração do estado de Brian Wilson, a principal força-motriz dos Beach Boys. 

The Beatles – Let It Be – Let it Be foi revisitado de forma arqueológica, meticulosa, com o formato super deluxe trazendo o disco oficial totalmente remixado por Giles Martin e o engenheiro de som Sam Okell, em estéreo e também em som surround DTS 5.1 e Dolby Atmos, mais a versão do álbum pensada pelo engenheiro de som e produtor Glyn Johns (e recusada sem cerimônia pela banda) e catadupas de versões alternativas, brincadeiras e ensaios.

A remixagem moderna – como costuma acontecer – remove camadas opacas, resultantes da tecnologia disponível à época da gravação, e dá um novo lustro e uma definição muito mais clara de vozes e instrumentos, revela detalhes novos (os vocais de “I’ve Got A Feeling”, por exemplo, ganham garra e paixão ainda maiores; sem harpa, como McCartney preferia, “The Long And Winding Road” agora perdeu muito do exagero e ficou mais clássica e menos xaroposa). 

Mais: os tempos mudaram, os ouvidos mudaram, as emoções mudaram.

As circunstâncias em 2021 são bastante diferentes do que eram em 1970, quando Let It Be saiu. Lá atrás, o álbum e o filme de mesmo título foram recebidos como o epitáfio amargo de uma banda flagrada em seu momento de maior discórdia. Agora, acoplado a Get Back (era esse o título original do álbum que estavam fazendo) –  o novo documentário que Peter Jackson montou, a partir de muito material deixado de fora do original de Michael Lindsay-Hogg – , Let It Be ressurge sob outra ótica, com a criatividade e a alegria de trabalhar juntos contrabalançando (ou sobrepujando, boa parte do tempo) os estresses naturais de um trabalho intenso e concentrado invadido por câmeras e claquetes. 

Os Beatles, àquela altura, eram como um casal que já sabia que sua relação não tinha mesmo muito mais futuro, mas fazia tudo para tentar preservar o melhor do que haviam construído até ali.

E essa nova versão deixa clara a camaradagem, o tesão de tocar como uma banda, e a capacidade de, apesar de tudo, concentrar os esforços, a criatividade e o profissionalismo de John, Paul, George e Ringo para deixar gravado algo à altura do seu legado. São os Beatles, afinal. E lembre que ainda não se aventava um álbum seguinte – esse, sim, sua última gravação a quatro – , que viria a ser Abbey Road. Também fica evidente o enorme benefício da entrada de Billy Preston no estúdio, o que revigorou e estimulou os quatro de forma considerável.

Ganha-se acesso a conversas de estúdio sobre composição (George pedindo conselhos para finalizar a letra de “Something” – John diz para ele simplesmente se virar, improvisando o que viesse à cabeça até chegar a um resultado que o satisfizesse –; Ringo apresentando a todos “Octopus’s Garden” – “é só isso que eu tenho”, ele admite, quando não passa dos primeiros versos, e todos caem na gargalhada, mas tentam ajudar –; Paul e John numa versão mais pesada e soul de “Oh, Darling”, ou os dois brincando com “Polythene Pam”, ambas faixas que só apareceriam no álbum  Abbey Road, gravado depois mas lançado antes de Let It Be). 

Estão aqui também embriões de músicas que só entrariam nos álbuns solo de George (“All Things Must Pass”) e John (“Gimme Some Truth”, para a qual pede sugestões a Paul: “precisamos mudar essa parte”, alerta Lennon, a certa altura). 

E é incluída, ainda, a versão de “Across The Universe” com Lizzie Bravo e Gayleen Pease nos vocais, uma inclusão histórica e merecida.

George Harrison – All Things Must Pass –  Um álbum triplo esparramado e de ar solene – embalado num caixote preto, semelhante ao da versão mais cara de Let It Be na Inglaterra, que vinha acompanhado de um livro relatando a feitura do disco – , All Things Must Pass, lançado em 1970, não foi o primeiro álbum solo de Harrison (antes, em 1968, havia feito a trilha para o filme Wonderwall, e em 1969 saiu Electronic Music, todo gravado usando o então novidade sintetizador Moog). Mas é sua obra-prima: canções eternas (de “My Sweet Lord” a “Beware of Darkness”, à faixa-título), composições complexas e sofisticadas (“The Art of Dying”, “Let It Down”), parcerias com Bob Dylan (“I’d Have You Anytime”, que abria os trabalhos), produção espetacular (a cargo de Phil Spector) e o acompanhamento da nata do rock da época (um time épico que inclui Ringo Starr, Eric Clapton, Peter Frampton, Klaus Voormann, Jim Gordon, Carl Radle e Bobby Whitlock – os quatro que viriam a fazer parte da legendária banda Derek and the Dominos, de Clapton e Duane Allman). 

A reedição expandida de AMP, com os discos originais remixados por Paul Hicks (que antes trabalhara com os catálogos dos Beatles, de John Lennon e dos Rolling Stones) e uma riqueza de material inédito, elevando o número de faixas a 70!, é uma descoberta. Ou melhor, uma redescoberta. 

A remixagem reduziu consideravelmente o eco que envolvia a voz de George, ressaltando, assim, inflexões e emoções, valorizando a interpretação. Além disso, revelou instrumentos, frases melódicas e minúcias dos arranjos que não se destacavam, ou simplesmente não existiam na mixagem original – aqueles detalhes que são até gravados, mas ficam de fora por escolhas técnicas ou artísticas. 

Assim, surgem ou saltam à frente aqui uma “cama” de teclados em “My Sweet Lord”, a tessitura dos vocais de apoio em “Behind That Locked Door”,  a verdadeira orquestra de guitarras que impulsiona “Wha-Wha”, o coro de “Ballad of Sir Francis Crips (Let It Roll)”, praticamente enterrado no disco de 1970. É como se as faixas perdessem um pouco da névoa das camadas de ecos e superposições do estilo de produção de Phil Spector para ganhar alta resolução.

Por sua vez, as versões alternativas e as novidades contidas na reedição nos ajudam a acompanhar o raciocínio (e, por vezes, a frustração) de George na feitura do álbum, ainda que muitas das músicas já estivessem bem definidas e com bases sólidas quando ainda eram demos, como se ouve aqui. Ele se irrita com o enésimo take de “Isn’t It A Pity”, mas oferece uma versão totalmente diferente (e quase ótima) de “Run of The Mill”, ou outra de “Whats Is Life”.

E em determinado momento mostra o quando ainda havia em George de afeição pelos Beatles, liderando uma animada jam de “Get Back”. 

Bandeira maior da força do ele com os antigos companheiros de banda talvez seja a inclusão de “Wedding Bells (Are Breaking Up That Old Gang Of Mine”, música que fala de como casamentos acabam dispersando grupos de amigos – e que os Beatles tocaram durante as gravações de Let It Be.

Joni Mitchell – Archives Vol. 2-The Reprise Years 1968-1971 – Os anos de Joni na legendária gravadora Reprise, enquanto o mundo a descobria, são celebrados com uma riqueza de material inédito, dentre rascunhos e shows. Como um show no Paris Theatre, em Londres, em outubro de 1970, numa apresentação gravada para o “In Concert”, programa semanal apresentado na BBC pelo legendário John Peel – e com a participação de James Taylor.

The Who – Sell Out – São incontáveis as pérolas da versão super deluxe de The Who Sell Out, o álbum de 1967 que definiu a personalidade da banda como criadora de trabalhos conceituais, abriu as portas para as óperas-rock que tornaram-se marca do grupo e é considerado até hoje uma de suas obras-primas. O caixotão comemorativo inclui as demos que o guitarrista e compositor Pete Townshend fazia para mostrar as músicas aos demais integrantes do Who, onde Pete toca e canta todas as partes da música.