Paul McCartney: da Q à GQ

A capa da nova edição inglesa da revista masculina GQ – uma publicação predominantemente dedicada a moda, carros, perfumes, saúde e, também, cultura – sublinha com caneta vermelha o estado atual da imprensa musical e expõe parte do problema no setor que levou à morte, semanas atrás, a revista mensal Q, nascida em 1986 quando os editores Mark Ellen e David Hepworth enxergaram um mercado focado em artistas mais velhos, cujas carreiras maduras vinham sendo turbinadas pela imensa popularização dos CD’s.

Na GQ inglesa de setembro a capa não traz o bonitão (ou esquisitão) do momento,  um artista de cinema, uma estrela do esporte ou da TV. A capa mostra Paul McCartney.

Por que isso é de especial significado? Em outros tempos, na hora de divulgar seu último lançamento ou sua última atividade, astros da magnitude de Paul – cujo álbum Flaming Pie, de 1997, acaba de sair em versão deluxe, cheia de material inédito – direcionavam sua comunicação preferencialmente para os veículos especializados, para falar direto com seu público. E estes existiam aos borbotões. Hoje, no entanto, são poucos e de alcance imensamente inferior ao de antigamente. E nessas horas os números contam – e muito. 

Se fosse dar uma exclusiva à Q, por exemplo, estaria falando com uma revista cuja circulação mensal não chegava a 30 mil exemplares no final de sua existência. Em contrapartida, a GQ britânica alcança – juntando cópias impressas e público online – cerca de 800 mil pessoas. 

Dos anos 1960 a meados dos 2000, uma infinidade de publicações cobriu a música pop, o rock, o R&B e todas suas permutações. Dos trades americanos (como Billboard, viva até hoje, com quase 126 anos de atividade ) aos semanários ingleses (dos quais sobrou o NME, em versão online), de fanzines mimeografados a revistas mensais para todos os gostos e cabeças, de adolescentes (Creem, Circus, Hit-Parader) a adultos (Crawdaddy, Musician), chegando ao cume com a fase áurea da Rolling Stone (encerrada em meados dos anos 1980) e desembocando, mais tarde, em revistas bonitas e parrudas (como a hoje defunta Q) de nicho (Prog, Classic Rock) ou confortavelmente ligadas no mercado heritage, aquele que gosta de revisitar com profundidade sua própria formação musical, gente mais velha e fissuradinhos mais jovens que curtem longos artigos sobre os 50 anos do Álbum Branco dos Beatles ou uma história oral da gravação do primeiro álbum do The Clash (Uncut e Mojo).

Além disso, nenhuma revista de música conseguiu adaptar-se bem ao universo digital, perdendo de lavada para veículos nativos online, como Pitchfork, site criado pelo gigante dentre as editoras americanas de revista,  a Condé Nast, que atrai 240 mil leitores por dia e 1.5 milhão de visitantes cada mês.

Uma exclusiva de Macca para a GQ – e não é a primeira, houve outra, em 2018, igualmente extensa –  , levando-se em conta o cenário atual de publicações musicais (e de todas as que melhor se posicionam, no caso de Macca, seriam Uncut e Mojo, uma vez que a Rolling Stone é um pálido fantasma de suas encarnações mais vitais), acaba fazendo sentido, em termos de marketing e comunicação, por mais que de início possa parecer estranho.

E a ironia é que a entrevista de Dylan Jones (o editor da GQ) com Paul é uma delícia de conversa sobre música, Beatles, e Liverpool de uma forma franca e farta incomum a Macca mesmo em revistas … de música. Ele fala aqui de detalhes de sua infância e juventude que não revelou a outros entrevistadores no passado e que não constam dos tantos livros sobre ele e seu antigo grupo. Com fotos exclusivas e “desarmadas”, feitas pela filha Mary, enquanto o pai cumpre o isolamento em sua fazenda em Sussex. Ou seja, é um triunfo jornalístico e merece todos os elogios. 

Deveria estar numa revista de música? Poderia. Só os números falaram nessa decisão de dar exclusividade e primeira mão à GQ? Sim e não. Hoje, Paul não é apenas (como se isso fosse pouco) um mega-astro de pop-rock, um ex-Beatle (o que já bastaria para canonizá-lo), mas um ícone cultural, um monumento da música popular que ajudou a moldar o mundo em que hoje vivemos em mais sentidos do que se possa imaginar (perto de celebrar 80 anos, ele tem a vitalidade, a relevância e a fome de um homem com menos de 50). Paul faz parte das vidas de bem mais que apenas os fãs de música que buscam fielmente suas revistas (heróicas, fundamentais e, felizmente, ainda sendo feitas com rigor e qualidade). 


Assim como a GQ não é mais apenas a mesma revista de, digamos, 30 anos atrás. Na mesma edição com Macca estão lá matérias sobre o movimento Black Lives Matter e debates sobre as mudanças trazidas pela pandemia do COVID-19.

Paul foi a capa da primeira edição da Q. Havia acabado de lançar o álbum Press and Play. Hoje, 34 anos depois e 11 álbuns mais tarde, está na GQ. E é isso aí. Essa é a realidade do mercado. E Macca, macaco velho, sabe (como sempre) onde pisa.