PLAYLIST 103 – A seleção comentada da semana

Suggs, Paul Weller – “OOH DO U FINK U R”– “Quem você pensa que é?”, perguntam duas figurinhas carimbadas do rock inglês da década de 1980 para cá – o vocalista do Madness e o Modfather em pessoa – num single de R&B relembrando seus tempos de escola, quando ouviram mais vezes do que gostariam a frase aí de cima. O que não os impediu de chegar onde chegaram. Muito pelo contrário.

Envy of None– “Liar“ – O que anda fazendo Alex Lifeson, guitarrista do Rush? Desde 2016 ele vem participando de um quarteto fundado pelo baixista Andy Curran (cuja banda, Coney Hatch, era administrada pelo mesmo empresário do trio original de Alex). Agora, o grupo de disponibilizou seu primeiro álbum, repleto de canções com tinturas prog mas concisas e ganchudas.

Letieres Leite, Orkestra Rumpilez – “Nanã” – Caetano Veloso, com voz de garoto, participa da homenagem ao compositor, saxofonista e arranjador pernambucano Moacir Santos, o autor da música, cantando a versão em inglês junto com a Orkestra do conterrâneo Letieres, que perdemos para o COVID ano passado.

Carlos Malta e Pife Muderno – “Expresso 2222” – Gilberto Gil participa com vigor dessa versão de uma de suas faixas-assinatura, numa regravação de intrincada tessitura feita pelos pífanos, flautas e percussão do grupo carioca comandado pelo veterano Malta. 

Bryan Ferry – “I Just Don’t Know What To Do With Myself”– Em meio aos preparativos para a turnê de 50 anos do Roxy Music, que começa em setembro, Bryan Ferry lança em seu novo EP, Love Letters, sua versão de um clássico da década de 1960, composto por Burt Bacharach e tornado famoso por grandes damas do pop, como Dionne Warwick e Dusty Springfield. 

John Doe – “Never Coming Back” – Eterno outlaw romântico, o sócio-fundador do X, um dos pilares do punk rock californiano, gravou um álbum ambientado na mesma Los Angeles de sua banda icônica, mas numa outra época, mais árida, mais desolada, mais violenta, onde ventos uivantes anunciam que o pior está por vir. 

Mipso – “Born at the Right Time”– O quarteto de Carolina do Norte gravou nova versão – levada por rabeca, violão e bandolim – de uma das canções mais marcantes do álbum The Rhythm of the Saints, lançado por Paul Simon em 1990.

Wolf Alice – “The Last Man On Earth”– Primeira faixa disponibilizada do terceiro álbum do quarteto britânico, com fortes traços gospel no coral que vai crescendo em peso, emoção e majestade no decorrer da metade final da canção. 

Anna Calvi – “Ain’t No Grave”– A cantora e guitarrista inglesa fecha com chave de ouro a jornada musical da série Peaky Blinders com uma canção já usada na quinta temporada mas presente também na saideira –e parte de um EP dedicada ao protagonista, Tommy. 

The Rolling Stones – “Rocks Off”– Cinquenta anos atrás, em maio de 1972, chegava às lojas Exile On Main St., um álbum duplo, extenso, denso, diverso, agudíssimo, ora solar, ora sombrio, que representava o resultado de meses de gravação no porão da residência de Keith Richards em Villefranche-sur-mer, na Côte d’Azur francesa, e de overdubs e mixagem em Los Angeles.  

A carreira dos Stones somava, então, uma década, e o disco  – povoado por uma amostra generosa dos idiomas musicais, de rock e blues a gospel, R&B e country –sucederia uma tríade absolutamente brilhante, redefinidora de trajetória: Beggars Banquet, Let It Bleed e Sticky Fingers

E, muito por isso, pela comparação com que tinha vindo antes, muita gente, talvez a maioria de quem ouviu Exile em 1972 – como escrevi, em 1985, na revista Bizz – “odiou o disco imediatamente, reclamou de falta de foco, mixagem lamacenta e encheção de linguiça. Erraram e acertaram. Primeiro, porque tudo isso era intencional – a massa sonora só podia ser penetrada a facão. Os vocais de Jagger foram enterrados mais do que o costume. Os agudos foram saturados. E, segundo, porque a maioria das músicas era uma sucessão de polaróides rock – imagens de decadência, dor, perigo, desilusão. E de sobrevivência.

Acima de tudo, Exile era um portrait dos Stones no topo de sua forma – faixas como “Tumbling Dice”, “Rocks Off”, “Soul Survivor” e “Rip This Joint” eram o testemunho de que, quando os Stones resolviam se reunir para fazer rock and roll, faziam o melhor rock and roll. Jagger explodia suas tripas em vocais insuperáveis. Richards e (Mick) Taylor trocavam riffs como guerrilheiros na selva. Bill Wyman e Charlie Watts sedimentavam uma construção crazy com uma argamassa indestrutível”.

Com a distância de cinco décadas, Exile soa espetacularmente vivo, nervoso, sanguíneo, com os Stones em forma de campeões, reafirmando sua supremacia no Olimpo rock, um clímax impossível de suplantar.

Recheado de sexo, política e drogas – no combustível e no conteúdo –, sujo, noir, sacana, cru, meticulosamente desconjuntado. 

Keith, com voz de galinho garnizé e arsenal de riffs icônicos, impulsionando um elenco matador de coadjuvantes (Bobby Keys,  Jim Price, Nicky Hopkins), conduzindo com Mick a banda como quem conduz uma parceira de dança, com segurança, intimidade e sensualidade. Ambos tirando onda, de cabo a rabo, lembrando a todos quem manda no terreiro.

Para sentir a altura do nível que os Stones impuseram a si mesmos e ao resto do panteão de gigantes do rock por toda a eternidade basta se deixar carregar pela locomotiva de “Rocks Off”– faixa 1 do lado A –, lutando contra a tentação de aumentar o volume a cada 10 segundos, até chegar ao final da música sem fôlego, levado ao êxtase pelo solo final de Mick Taylor, que decola justamente quando a faixa, provocativamente, atinge seu fade out, deixando um rastilho de tesão que convida a começar-se tudo de novo. Que é o que você vai fazer.