PLAYLIST 23 – A seleção comentada da semana

Avishai Cohen, Big Vicious – “Teardrop”- Uma versão elegante e atmosférica do antigo sucesso do Massive Attack (que tem um jeitão de “Dear Mr. Fantasy”, do Traffic) , cortesia do trompetista israelense Avishai, acompanhado de sua banda, produzido para o chiquérrimo selo ECM pelo craque Manfred Eicher, o próprio dono da gravadora.

Ben Harper, Rhiannon Giddens – “Black Eyed Dog” – Mais uma cover, dessa vez do repertório de Nick Drake, primeiro fruto de uma colaboração entre os dois artistas americanos, com ela dedilhando o banjo e ele na guitarra de colo. 

Cream – “Steppin’Out” – Pense que o EP de cinco faixas de onde saiu esta gravação é resultado de uma transmissão pela rádio sueca de um show da banda em 1967, em Estocolmo. Cream no auge, quebrando tudo, ao vivo, e os suecos mais ligados acompanhando tudo de dentro de casa. Sortudos. 

Jenny O. – “God Knows Why” – A angelena Jenny (que estrelou nossa primeira PLAYLIST, no hoje tão distante mês de fevereiro), ganhou um limão azedo e fez a limonada mais doce do mundo. Ao perder a audição de um dos ouvidos, ouviu do médico um  diagnóstico desconcertante: “Foi Deus quem tirou”. Jenny, então, compôs uma música sobre o ocorrido e sobre seu problema, uma canção leve e com senso de humor. 

Bright Eyes – “Mariana Trench” – O trio de Conor Oberst convocou o baixista Flea, dos Red Hot Chill Peppers, e o baterista Jon Theodore, do Queens of the Stone Age, para gravar essa faixa com ecos beatlescos de seu novo álbum, Down in the Weeds Where the World Once Was, que sai em setembro.

Renato e Seus Blue Caps – “Você Não Soube Amar” – Os Blue Caps de Renato podem perder na qualidade de produção, mas chegam perto de superar em energia o original de Gerry and The Pacemakers, de 1963, na aplicada adaptação para o Brasil do rock de guitarra que conquistava o mundo e deu origem aqui a tantos artistas agrupados sob o guarda-chuva da Jovem Guarda. Uma faixa onde se destaca a guitarra de Renato Barros, morto esta semana, aos 76 anos. 

Fleetwood Mac – “O Well (Pt. 1)” – Outro grande do rock que se vai, Peter Green – que também morreu esta semana, aos 73 anos – fundou o Mac, em 1967, como uma banda estritamente de blues, sem saber que estava dando partida a um dos maiores fenômenos pop da história.  Esta é uma de suas tantas músicas-assinatura, parte integral ainda hoje do repertório de shows do grupo.

Early James – “Blue Pill Blues” – O primeiro álbum de Frederick James Mullis Jr. para o selo de Dan Auerbach, dos Black Keys, apresenta um rock-raiz neo-retrô impulsionado por uma voz curtida e arranjos de contornos vintage.

Instituto Mexicano de Som + Gaby Moreno – “Yemaiá”- Em 1992, Camilo Lara era pouco mais que um garoto e trabalhava no departamento internacional da EMI na Cidade do México. Nos conhecemos naquele ano no estúdio de Prince, em Minneapolis, para a festa de lançamento do Love Symbol Album, na época em que o músico, de mal com a Warner, assinava seu nome com um símbolo impronunciável e distribuía seus discos através da EMI. Regada a refrigerante, água e nada de álcool (por ordem e convicção do anfitrião), a festa culminou com um show incendiário que varou a madrugada gelada. Não muito tempo depois, Camilo foi meu anfitrião e guia na Cidade do México para uma investigação in loco do então emergente rock en español para a revista Bizz. De quebra, me levou de carro pela periferia até chegarmos à casa de Juan Garcia Esquivel, o então septuagenário que nos anos 1950 e 1960 se popularizara com um estilo de música instrumental idiossincrática que misturava jazz, ritmos latinos, sons futuristas e efeitos. Deitado em sua cama, bastante frágil mas ultra lúcido, Esquivel nos recebeu com café-com-leite e muitas histórias que até hoje não publiquei. Quase 30 anos mais tarde, aquele garoto doce, quase tímido, é uma sensação da música mexicana, lançando mesclas de folclore com batidas eletrônicas, trechos de antigos discursos políticos, samples de pop anos 1980, tudo creditado a um tal Instituto Mexicano de Som – que não existe, pois é uma “banda” que consiste exclusivamente de Camilo. Aqui num formato bem mais formal de canção, ele vem acompanhado da grande Gaby Moreno, da Guatemala. 

Hannah Williams & The Affirmations – “Heart-Shaped Box”- Cover sanguínea, neo-soul, impulsionada por metais e pelos vocais de furacão de Hannah, de uma das músicas mais ácidas do Nirvana. A gravação foi feita durante o confinamento, cada músico tocando separadamente, em sua casa, e a música a ser registrada foi selecionada numa votação feita entre os fãs da banda, que é de Bristol, na Inglaterra.