PLAYLIST 30 – A seleção comentada da semana

Leo Kottke, Mike Gordon – “Ants” – Essa é a terceira parceria em disco do baixista do Phish com o veteranérrimo gigante do violão, Leo Kottke, e a primeira em 15 anos. Apesar de algumas covers seletas, de músicas do repertório dos Byrds e de Prince, é no material original que a dupla brilha, como nessa complexa composição, cuja gravação levou anos até Leo aprovar. O que é compreensível, dado o desapreço de Kottke pelo estúdio, uma vez que seu habitat natural é o palco,

Jeff Tweedy – “Guess Again” – Faixa do álbum solo Love Is King, que sai em outubro, gravado durante o lockdown, com a ajuda dos filhos Spencer e Sammy.

Lo Tom – “Outta Here”- Espécie de supergrupo formado por veteranos indie, o quarteto faz um tipo de rock que pode ser localizado entre as décadas de 1980 e 1990.

Sharon Van Etten, Josh Homme – “(What’s So Funny ‘Bout) Peace, Love and Understanding”- O clássico de Nick Lowe (imortalizado por Elvis Costello de forma acachapante) ganha versão colaborativa, gravada na quarentena por Sharon e Josh. 

Ike & Tina Turner – “Whole Lotta Love”- Sem o frenesi sexual do pulsante original, aqui o clássico do Led Zeppelin ganha sensualidade maior nas mãos da dupla, feita em 1975.

Native Harrow – “Carry On” – Há um quê de “Let It Be”, decerto, nesta faixa folk gospelizada de outra dupla – dessa vez, de Nova York – que caberia muito bem num disco gravado décadas atrás.

Janelle Monáe – “Turntables” – Nossa eterna musa Janelle entra no ringue do protesto com uma música criada especialmente para o documentário All In, que usa como ponto de partida a disputa pelo governo da Georgia em 2017 – quando Stacey Adams, ativista, prefeita de Atlanta e candidata negra, perdeu 300 mil votos por conta de uma manobra malandra de seu concorrente (e vencedor do pleito) – para falar sobre a supressão do voto negro nos Estados Unidos, um problema endêmico.

Cindy Blackman Santana – “We Came to Play” – Baterista da banda de Carlos Santana e também sua esposa, Cindy lança-se solo com um álbum repleto de convidados especiais, como o guitarrista John McLaughlin, parceiro de Carlos numa séria de discos antológicos no final dos anos 1970. Aqui, ela quebra tudo num jazz rock invocado. 

Jimi Hendrix – “Machine Gun” – Cinquenta anos atrás a música perdeu Jimi Hendrix. E, como todo ano, a gente se indaga: que tipo de música ele estaria fazendo hoje em dia, com a experiência adicional de meio século? É uma pergunta impossível de ser respondida. Jimi gostava de experimentar, era fissurado por novos sons e novas tecnologias, o estúdio era seu lar – daí ter criado o Electric Lady Studios, em Nova York, em atividade até hoje. Por isso, as possibilidades do que ele estaria fazendo hoje são infinitas, instigantes – e frustrantes, porque nunca saberemos. Só podemos especular. Uma das vertentes que ele vinha explorando no final da vida foi o mergulho mais profundo nas variações da música negra. A Band of Gypsys – formada com seu velho companheiro Billy Cox, no baixo, e o já estrelão Buddy Miles, na bateria e no vocais – demonstrou isso nos quatro shows realizados na virada de 1969 para 1970, no Fillmore East, em Nova York. É de lá que vem esse pranto elétrico, um vagido de raiva, dor, medo e revolta que traz aquele que considero o solo mais transcendental e emocionante de toda sua carreira. “Machine Gun”(Metralhadora) é um soul funkeado sideral, onde ele parte de um protesto contra a guerra do Vietnã para decolar em direção a galáxias, fazendo a verdadeira música das esferas. 

Toots and The Maytalls – “Pressure Drop”- E dias atrás perdemos Frederick “Toots” Hibbert, que, à frente dos Maytalls desde 1962, foi um dos pioneiros do reggae e uma de suas maiores expressões, cujo novo álbum, Got to Be Tough, o primeiro em 10 anos, festejamos aqui mesmo em agosto. Vamos lembrar dele ouvindo uma de suas músicas-assinatura, e um dos maiores sucessos de toda a história do reggae, regravada por gente como The Clash, Keith Richards, Robert Palmer e The Specials.