PLAYLIST 43 – Os Discos do Ano-2020

Bob Dylan – Rough and Rowdy Ways

Do nada, sem aviso prévio, Bob Dylan disponibilizou em março uma música nova com quase 17 minutos de imagens impressionistas, mais declamadas que cantadas, muitas vezes conectadas por livre associação, sob um fundo elegíaco de cordas, piano e percussão, usando o assassinato de John F. Kennedy como ponto de partida para uma viagem cultural e existencial que cita Beatles, Woodstock, Stan Getz, Patsy Cline, a ópera-rock Tommy, e por aí vai.

“Murder Most Fowl” era o primeiro gostinho de Rough and Rowdy Ways, o álbum denso e sanguíneo que às vezes parece gravado em algum inferninho numa madrugada da década de 1950. Outras, numa sala de concertos. Repleto de personagens e imagens literárias, históricas, bíblicas e apocalípticas, corações partidos e reflexões de quem tem muita quilometragem nesse planeta.

Como sintetizado em “I Contain Multitudes”, que reúne figuras da cultura de diferentes décadas (de Edgar Allan Poe e Anne Frank a “aqueles bad boys britânicos, The Rolling Stones”) numa balada meditativa, de arranjo com instrumentação mínima, que gira em torno de um tema bastante claro e específico: a inexorável passagem da vida, o que isso nos causa, a criatura em que nos transforma.

Nessa música-síntese, Dylan diz trazer multidões em si, resultado do acúmulo da experiência – da alegria e da dor – que só se adquire com muito viver. Um homem de contradições, de muitos humores, “eu canto as canções da experiência, como William Blake. Não tenho desculpas a pedir”.

E mantém-se aberto ao futuro, ao novo, ao perguntar “diga, o que vem depois? O que devemos fazer?”, num claro aceno a “todos os caras jovens” (os “All The Young Dudes” da canção de David Bowie”). “Metade de minha alma, baby, pertence a você”.

Em Rough and Rowdy Ways – nosso Disco do Ano – Dylan se aproxima dos 80 anos com lucidez, genialidade e a habilidade poética e musical absolutamente afiada – e a capacidade de nos surpreender plenamente intacta. 

Vida longa, Bob. E viva a vida.

Fiona Apple – Fetch The Bolt Cutters

Ressurgindo após um silêncio de quase uma década, Fiona se impôs como uma das artistas mais criativas e instigantes de sua geração com  possivelmente o melhor álbum de sua carreira (o quinto),  de sonoridade singular – ao mesmo tempo cru e sofisticado, com arranjos tão inusitados quanto surpreendentes –, anos-luz à frente do que muitos de seus contemporâneos vem fazendo. 

Aliás, é um álbum diferente de tudo que você ouviu esse ano, com a personalidade própria de um disco literalmente feito em casa, sem concessão alguma a quem ou ao que for. 

Nick Cave – Idiot Prayer

Nick fez no Alexandra Palace, em Londres, um concerto solo de piano em que visitou músicas de diferentes fases de sua carreira, dentre elas muitas raridades, chegando a Ghosteen, álbum de 2019. É um concerto tão solene quanto potente e emocionante, ainda mais quando se lembra as condições em que foi gravado – em meio à pandemia – e quando se nota que a única música nova chama-se “Eutanásia”.

Fleet Foxes – Shore 

A versão atual do folk-rock progressivo do Fleet Foxes é sua mais ambiciosa, ao chegar a este arrojado, exuberante quarto álbum com um notável condimento de sofisticação pop realçando os vocais imaculados e os arranjos ricos da banda de Robin Peckold. Com direito a participação de Tim Bernardes. 

Bruce Springsteen – Letter to You

De surpresa, Bruce Springsteen lançou no final de outubro seu generoso primeiro álbum com a E Street Band desde 2014: Letter To You, 12 faixas gravadas ao vivo em seu estúdio caseiro, em New Jersey, em apenas quatro dias, pá-pum. 

O álbum fecha um ciclo de trabalhos autobiográficos -– e aqui se incluem um livro e um show solo na Broadway – cercado de uma E Street Band com gás total, desencavando até músicas de uma fase anterior à banda, alternando momentos de lembranças com outros de desafio à passagem do tempo.