PLAYLIST 51 – A seleção comentada da semana

Little Feat – “Romance Dance”– O Little Feat tornou-se uma verdadeira obsessão minha a partir do momento em que meu amigo Jovino me apresentou à banda californiana, àquela altura já entrada em seu quinto álbum, o genial The Last Record Album, para cuja capa o pintor Neon Park imaginava uma Hollywood onde o conhecido letreiro da cidade – ali transformada num deserto – aparecia encravado numa montanha de gelatina. Era rock and roll, mas também era Nova Orleans; era blues, mas também era funk; era pop e country mas também era experimental. E como tocavam e cantavam! A começar pelos co-fundadores, o guitarrista e cantor Lowell George (que slide elegante, preciso e cortante, que voz elástica, indo fácil da doçura para os berros de Howling Wolf), egresso dos Mothers of Invention; o tecladista Bill Payne (com sua capacidade de soar como se estivesse tocando num saloon ou num bar de Bourbon Street); o baterista Ritchie Hayward (com uma pegada  confiante e confortável em qualquer estilo), o guitarrista e vocalista Paul Barrere (dono de um timbre flangeado todo dele), o baixista Kenny Gradney (outro poliglota musical, versado em funk e R&B) e o percussionista Sam Clayton. Em pouco tempo aquela escalação da banda mudaria, na medida em que Lowell apostava numa carreira solo (que durou um único disco, lançado quando George morreu, prematuramente, de infarto) e os demais músicos se aproximavam do território jazzístico do Weather Report. Por isso, escolho essa fase, a de 1975, para apresentar o Little Feat a quem ainda não o conhece, por ser a mais redonda e representativa de tudo que a banda tinha a oferecer.

The Who – “Pictures of Lily” – Começam a ser disponibilizadas as incontáveis pérolas da versão super deluxe de The Who Sell Out, o álbum de 1967 que definiu a personalidade da banda como criadora de trabalhos conceituais, abriu as portas para as óperas-rock que tornaram-se marca do grupo e é considerado até hoje uma de suas obras-primas. O caixotão comemorativo inclui as demos que o guitarrista e compositor Pete Townshend fazia para mostrar as músicas aos demais integrantes do Who, como essa aqui, sem bateria, onde Pete toca e canta todas as partes da música. 

Arab Strap – “Here Comes Comus!” – A sonoridade década de 1980, versão século 21, abre as alas para o primeiro disco da estimadíssima dupla escocesa de indie rock em quase 16 anos com essa ode aos deuses dos excessos.

Tash Sultana – “I Am Free” – Capa da atual edição australiana da Rolling Stone, Tash Sultana é a grande sensação do ano naquela região. Multi-instrumentista, ganhou popularidade fazendo apresentações solo em que se transformava numa verdadeira orquestra de guitarras e percussão. Em seu recém-lançado segundo álbum, Terra Firma, demonstra maturidade,  enquanto aprimora seu estilo singular com um repertório eclético e uma produção de gente grande.

Valerie June – “Call Me A Fool” – Para essa faixa de seu terceiro (e profundo) álbum, The Moon and Stars: Prescriptions For Dreamers (que sai em março), Valerie buscou a participação (e a benção) de uma conterrânea legendária, Carla Thomas, a Rainha do Soul de Memphis. 

Iceage – “Vendetta”– Faixa pesada e sombria do quinto álbum da banda punk dinamarquesa, Seek Shelter,  gravado em Lisboa durante 12 dias e atual sucesso na BBC. 

Julien Baker – “Favor” – Mais uma parceria do coletivo boygenius, formado por Julien mais Lucy Dacus e Phoebe Bridgers, esta faixa de indie pop agridoce faz parte do novo álbum de Baker, Little Oblivions, que saiu hoje.

Eliza Shaddad – “Don’t Let Me Be Misunderstood” – Mais uma pinçada da trilha de uma série. Dessa vez, da controversa (e maluquete) Por Trás dos Seus Olhos, da Netflix, estrelada por Eve Hewson, filha de Bono, do U2. A misteriosa versão dream pop do clássico imortalizado por Nina Simone foi gravada pela britânica Eliza.

Fruit Bats – “The Balcony”– Ecos de Fleetwood Mac (ou, pelo menos, de Lindsey Buckingham; ou um parentesco com The Belle Brigade) marcam a nova faixa do sempre bem-vindo Fruit Bats, de Chicago, liderado por Eric D. Johnson, que também é um dos integrantes do supergrupo de indie folk-rock contemporâneo, o igualmente ótimo Bonny Light Horseman.

Paul Weller – “Cosmic Fringes” – SIntetizadores, bateria eletrônica e riffadas econômicas mas certeiras propulsionam a nova música do incansável e prolífico Modfather, parte de seu novo álbum Fat Pop, que sai em maio e é descrito como uma eclética “celebração da música”.