PLAYLIST 78 – A seleção comentada da semana

Rita Lee, Roberto de Carvalho – “Change” – A primeira inédita de Rita em quase uma década levou anos sendo gestada por Roberto de Carvalho e, depois, reconfigurada por Gui Boratto, produtor de música eletrônica. O resultado é típico Rita: atento a seu tempo mas apontando para o futuro, um vigoroso convite às pistas de dança e à meditação, acredite, sobre o sentido da vida, a partir de um delicioso jogo de palavras (em francês e inglês). 

Aimee Mann – “Burn It Out” – Nossa eterna musa apresenta a segunda amostra de seu novo álbum, Queens Of The Summer Hotel — que sai em novembro. Agridoce à enésima potência. Como a gente gosta. 

Zé Nigro – “Apocalip Se” – Produtor que só agora, entrado em mais de 20 anos de carreira, grava seu primeiro disco, esse paulistano aplica tudo que sabe no álbum Apocalip Se, mesclando tropicália, pop internacional state of the art, black music brasileira, indie rock, reggae e até um tanto de Steely Dan, como na faixa-título. 

Amythyst Kiah – “Hangover Blues” – O tema aqui é a ressaca – e a resignação de que, mesmo se pudesse voltar no tempo, tomaria o mesmo porre, do mesmo jeito. Parte do projeto Our Native Daughters, liderado por Rhiannon Giddens e vencedor de um prêmio Grammy, Kiah lida em seu terceiro álbum com temas duros, ásperos (como a dependência química), utilizando um arsenal de estilos e instrumentos que inclui de R&B e blues a baladas, de guitarra slide distorcida e espicaçante a metais e violinos. 

Minnie Ripperton – “Les Fleurs” – Outro dia desses o Spotify me recomendou a versão de um antigo super hit de Minnie Ripperton, “Fleurs”, regravado por um grupo alemão que usa steel drums para tocar funk, Bacao Rhythm & Steel Band. Era, de fato, interessante. Mas a gravação original, de 1970, dá de mil a zero. Es tut mir echt leid …

Jorge Du Peixe – “O Fole Roncou” – Baião Granfino,  primeiro disco individual do vocalista da Nação Zumbi, celebra a música de Luiz Gonzaga trazendo-a para uma estética século 21. Aqui, vem acompanhado da cantora e compositora paraibana Cátia de França, uma verdadeira força da natureza. 

Spencer Cullum – “Imminent Shadow” – Uma interessante mescla de folk inglês, psicodelismo e MPB da década de 1960, feita por um artista que vem de uma banda que celebrava justamente os Sixties (o tema de “Batman” é uma das pérolas da Steelism), tirada de um disco solo variadíssimo e arrojado, que merece ser degustado com vagar.

Anthony Hamilton – “Love Is The New Black”– Veterano do R&B, Anthony começou a compor músicas para seu primeiro álbum em mais de cinco anos inspirado pelos conflitos raciais que aconteceram nos Estados Unidos ano passado. Teria sido um disco mais raivoso. Mas, aos poucos, com o passar do tempo, preferiu mudar o tom, para falar, predominantemente, de amor, usando para isso um estilo mais tradicional de soul music, com raízes firmemente plantadas no sul do país, de onde Hamilton vem.

Santana – “Whiter Shade Of Pale”– A retórica psicodélica desta música da década de 1960 ganha uma roupagem latina quando Carlos e banda revisitam um clássico perene do Procol Harum, com Stevie Winwood no vocal.

Dr. Lonnie Smith – “Too Damn Hot”– Essa semana perdemos um gigante do jazz, um craque do órgão Hammond B3 cuja carreira vai do jazz pop feito como integrante da banda do guitarrista George Benson às parcerias antenadas que montou no final de sua vida, depois de se revigorar pelo hip hop e o acid jazz, colaborando com artistas mais jovens e versados em outros idiomas musicais (como Iggy Pop). Aqui ouvimos o Dr. Smith ao vivo, com sua banda habitual, numa faixa do álbum Breathe, lançado esse ano –longa barba branca balançando ao ritmo da música, o turbante-assinatura sempre no lugar.