PLAYLIST 80 – A seleção comentada da semana

Tears for Fears – “The Tipping Point” – Roland Arzabal e Curtis Smith emergem de um longo período de hibernação para lançar sua primeira música nova desde 2004: a faixa-título de um álbum de inéditas que só sai em fevereiro. Como em muito de sua discografia, a nova canção fala de dores profundas e as maneiras de superá-las. A letra fala dos sentimentos provocados pela deterioração da saúde da hoje falecida esposa de Roland, e de como ele se negava a aceitar o inevitável. 

Carolina Alabau – “The Sound of Silence” – Vinda de uma família de músicos de Barcelona, Carolina canta um clássico de Simon and Garfunkel junto com a violinista Élia Bastida, integrante da orquestra juvenil espanhola comandada pelo maestro Joan Chamorro (todos, aliás, apaixonados por música brasileira. A internet está cheia de vídeos com eles interpretando clássicos da MPB, com um sotaque charmoso e todo especial). 

Van Dyke Parks – “Cielito Lindo” – Letrista que trabalhou com os Beach Boys e orquestrador de uma infinidade de artistas dos anos 1960 em diante (leia de Ry Cooder a Little Feat), Van Dyke sempre teve um apetite para o singular, para o único, para o inusitado. E aqui ele cria uma parceria especialíssima com a cantora, compositora e harpista mexicana Verónica Valerio.Tudo em espanhol, com trechos declamados. Um som incomum, que merece ser devidamente degustado. E a colaboração ganha um toque ainda mais especial quando se sabe que a ilustração do CD que contém as cinco faixas gravadas durante a pandemia foi feita por ninguém menos que Klaus Voorman, baixista e autor da imagem da capa de Revolver, dos Beatles. 

Nathaniel Rateliff & The Night Sweats – “Love Don’t” – Nathaniel é branco e do Colorado, mas soa como se fosse um cantor negro no palco de um show de soul music e R&B dos anos 1960. Esse é o dom dele: atualizar a sonoridade vintage que fez a cabeça dele e tantos outros artistas. 

Dave Gahan – “Metal Heart” – Vocalista do Depeche Mode, Dave gravou Imposter, um álbum solo todo de covers (de músicas de artistas como Neil Young, Bob Dylan e PJ Harvey). Aqui, ele dá sua versão para uma canção quase intimista de Cat Power, transformando-a com um coro monumental e um arranjo bombástico.

Sam Gendel– “Isfahan” – Sam desconstruiu um clássico de Duke Ellington, fazendo um “jazz com sonoridade de sonho”, como descreveu a revista The New Yorker, misturando texturas e instrumentos efeitados para obter um resultado que pode até desconcertar alguns, mas que não deixa de ser absolutamente fascinante. 

Nova Twins – “Bullet” – Essa dupla londrina não é formada por irmãs, muito menos por gêmeas (são amigas de infância), mas é uma das atuais bandas favoritas de Tom Morello. O que faz sentido: o som da vocalista e guitarrista Amy Love e da baixista Georgia South – cheio de atitude, todo rosnado e provocação –lembra a mistura de rock pesado e rap do Rage Against The Machine, com um condimento adicional de música eletrônica. Em seu novo single elas chegam remixadas por outro grupo feminino cheio de marra, o trio Dream Wife. 

They Might Be Giants – “I Lost Thursday” – Na década de 1980, essa dupla americana de rock alternativo tinha um sucesso, bem, gigante, graças a sua música inteligente e idiossincrática e suas canções curtas – e era presença incontornável na MTV daquele tempo, com vídeos ultra bem sacados, com imenso senso de humor, para sucessos como “Don’t Let Start” e “Istanbul (Not Constantinople)”. Agora, John Linnell e John Flansburgh estão de volta com seu 16º álbum e o mesmo toque engraçado e peculiar, cantando aqui sobre as agruras de se perder a quinta-feira e não conseguir achá-la. 

Michael Kiwanuka – “Beautiful Life” – Um de nossos favoritos de sempre, Michael já teve sua música utilizada na trilha de séries de TV (sua “Cold Little Heart” abria cada capítulo de Big Little Lies, na HBO). Agora, no entanto, compôs especialmente para o documentário Convergence: Courage in a Crisis, sobre os heróis no combate ao COVID-19, que será exibido na Netflix. 

Joni Mitchell, James Taylor – “You Can Close Your Eyes”– Que sublime: Joni e James, juntos no Paris Theatre, em Londres, em outubro de 1970, numa apresentação gravada para o “In Concert”, programa semanal apresentado na BBC pelo legendário John Peel. A música estava fresquinha, tendo sido composta por Taylor naquele mesmo ano, e ele só a registraria em 1972, para o álbum Mud Slide Slim. E os dois aqui meio que brincam com a música e com suas possibilidades de harmonização vocal, num momento íntimo (na íntegra desse pedaço do show, Joni descreve a música como uma canção de ninar e cantarola “With a Little Help From My Friends”, dos Beatles, antes de James dizer que é sim alívio tê-la ali no palco com ela, ao que ela responde: “Por que não formamos uma dupla?), em que o mundo os descobria.