Quarenta anos atrás, a MTV mudava tudo. Para sempre

Quarenta anos atrás, em agosto de 1981, a MTV entrou no ar nos Estados Unidos. Ou melhor, apenas no estado de New Jersey. Ou melhor, somente em partes do estado.

Depois que a imagem do Apolo 11 decolando e um astronauta fincando no solo lunar a bandeira do novo canal de TV a cabo,  foi seguida, com doce ironia misturada com bravado, do vídeo de “Video Killed the Radio Star”, dos Buggles, nada foi como antes.

Ainda que no início seu alcance fosse mínimo.

Com o passar do tempo, com a expansão da MTV a hegemonia das rádios AM e FM – que ditavam as tendências e construíam (ou destruíam) carreiras – ganhou seu mais formidável oponente, quando a música passou a ser divulgada também através de imagens em movimento e o visual passava a ter peso igual (ou, em alguns casos, maior) que o som. E quando a imagem – mais que o som – virou a atração principal.

Vídeos promocionais não eram exatamente novidade no mundo da música – estão aí os Beatles como exemplo, a partir do momento em que abandonaram os palcos, a partir de 1966, e alcançavam o planeta inteiro com promos de seus principais lançamentos. Mas a MTV popularizou um gênero específico, o videoclipe, e uma nova linguagem audiovisual que, em pouco tempo, converteu artistas de diferentes plumagens e cooptou diretores de cinema, TV e publicidade.

Como a MTV, nos seus primeiros meses de existência, precisava de conteúdo desesperadamente para municiar seus cinco VJ’s inaugurais com assunto suficiente durante a programação, todo mundo tinha uma chance de ganhar seu espaço, desde que oferecesse um mínimo de qualidade de som e imagem. Consequentemente, o repertório inicial de clipes era eclético o bastante para misturar o jazz de Lee Ritenour com o pop progressivo de Styx, o punk new wave dos Pretenders com o metal do Iron Maiden.

Aos poucos, a logo da MTV tornou-se sinônimo de inovação, tão conhecida quanto a da Coca-Cola, e os videoclipes adquiriram maior sofisticação e criatividade, o que trouxe novas conquistas técnicas e artísticas ao gênero: como a animação simulando fotocópia de “Take On Me”, do a-ha, as aventuras em locais exóticos do Duran Duran, o stop-motion cheio de senso de humor de “Sledgehammer”, de Peter Gabriel (feito pelo mesmo estúdio Aardman que nos deu ‘A Fuga das Galinhas” e “Wallace e Gromit”), o CGI de “Moneyh For Nothing”, do Dire Straits.

Alguns artistas, pioneiros, expandiram as fronteiras do videoclipe, realizando mini-filmes: vide “Thriller” e “Bad”, de Michael Jackson, unido a duas feras do cinema, John Landis e Martin Scorsese.

Por outro lado, a MTV tornou-se uma faca de dois gumes, quando muitas vezes o visual adquiria importância maior que a própria música que devia embalar e o videoclipe tornou-se uma obrigação, em vez de uma alternativa ou uma opção a mais na divulgação der um artista.

E não demorou muito (cerca de três anos) até a MTV ser acusada de segregar artistas não-brancos, algo que só viria a ser superado com a entrada do hip hop no veio principal da cultura americana.

Versões internacionais e incontáveis rebentos depois (MTV Music Video Awards, VH-1, jornalismo de primeira, liderado por Kurt Loder, ex-Rolling Stone, mais uma catadupa de reality shows), a MTV perdeu o lustro da novidade e a influência que um dia teve.

Hoje, os videoclipes são pulverizados em veículos mais tentaculares: as redes sociais. E, graças às novas tecnologias, produzi-los e distribui-los tornou-se extremamente acessível: ano passado, o diretor australiano Daniel Askill rodou boa parte do videoclipe para “Stupid Love”, de Lady Gaga, usando um iPhone 11.

Um golpe promocional, claro, tanto para a cantora quanto para a Apple, mas mesmo assim mostra o quanto é possível hoje em dia com tão pouco, se comparável aos tempos de câmeras pesadas e caras e ilhas de edição que custavam 100 mil dólares. 

Hoje, como pregava o bordão promocional da nova “music television” (“I want my MTV”), qualquer um pode ter ou ser sua própria MTV.

Abaixo, veja o primeiro videoclipe veiculado pela MTV, em 1 de agosto de 1981.

E aqui assista às primeiras quatros horas de programação da MTV.