Sobre Sylvain Sylvain, um dos fundadores dos New York Dolls

Cheguei em Nova York, naquele fevereiro de 1974, com muita  fome de shows – e com um coração, àquela altura, predominantemente progressivo. 

Os deuses do Moog conspiraram para que minha passagem pela cidade coincidisse com a apresentação do Yes, em sua formação quase clássica (Bill Brufford havia sido substituído por Alan White na bateria), no Madison Square Garden, e logo abocanhei um ingresso para aquele show. 

Mas antes disso havia espaço para mais.

O telão eletrônico em Times Square anunciava também Bob Dylan com The Band (teria sido uma noite histórica. Vacilei brabo e dispensei) e Crosby, Stills, Nash & Young (também burramente esnobado), mas minha atenção foi desviada para dois outros pequenos shows na New York Academy of Music, um teatro bem menor que um ginásio esportivo como o Garden, e, por inúmeros motivos, bem mais cool.

Tratei de garantir entradas para ver o Black Oak Arkansas de Jim Dandy (um rock sulista, machão e quase histriônico) e, em outra noite, seu oposto absoluto: The New York Dolls. 

Os Dolls já estavam no meu radar fazia tempo. Conhecia seus dois primeiros álbuns e entedia qual era a deles: rock sujo, selvagem e pesado, com um pezão no glam e na androginia de sua época, e um delicioso senso de humor. 

Mas ao vivo o impacto foi totalmente outro. Era avassalador, uma onda de energia e marra, uma das mais frutíferas sementes do que seria o punk. E, por isso, ali estava também um show histórico. Um marco na evolução da linguagem e da cultura do rock.

Tudo isso para lembrar de Sylvain Sylvain, guitarrista e um dos fundadores dos Dolls com o vocalista David Johansen, morto na semana passada, aos 69 anos, em consequência de um câncer.

Sylvain Mizrahi imigrou para os Estados Unidos aos sete anos, um judeu sírio fugindo do Egito, e foi ele quem deu o nome à banda, depois de ter visto um uma loja de conserto de bonecas chamada The New York Doll Hospital. 

“Formamos os Dolls por causa de nosso tédio com o que era a norma daquela época”, disse Sylvain em 2006 numa entrevista ao Brooklyn Vegan, “o rock de estádios, com solos de bateria que duravam 20 minutos e músicas que pareciam operetas. Era chato, (o rock) tinha perdido o sex appeal”.